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segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

VIAGEM DE METRO

Há já muito tempo que não viajo no Metro de Lisboa. Mas reconheço que é um excelente meio de transporte quando se tem urgência em atravessar a cidade de um ponto a outro.
Lembrei-me de um episódio nele passado, quando ainda era jovem, há já muitos anos...
Tinha embarcado em Entre-Campos, em direcção ao Rossio. A carruagem não ia muito cheia. Consegui encontrar lugar sentado, acomodei-me e tirei da pasta um livro que andava a reler, do Processo de Franz Kafka.
Já o tinha lido algumas outras vezes e de cada uma que lia era-me possível imaginar um destino diferente para o Sr. Kafka.
Olhando por sobre as suas páginas amareladas, pude observar poucos metros à frente, num daqueles bancos de costas para as janelas que alguém inspiradamente baptizou de “banco dos palermas”, uma linda e elegante morena de olhos negros. Discreta no vestuário mas suficientemente bonita para que se destacasse entre as demais mulheres que viajavam na carruagem.
Durante a viagem, por uma vez ou outra arrisquei-me a fitá-la. Fui surpreendido por um olhar de retorno e um disfarçado sorriso. Foi no meio dessa troca de olhares que na estação do Saldanha entrou um homem de avançada idade, casaco coçado de tamanho bastante maior que o corpo franzino que envolvia , trazendo na mão uma Bíblia de capa tão carcomida e antiga que cheguei a pensar se não se trataria de um original das sagradas escrituras.
O homem, postou-se em pé em frente ao “banco dos palermas” e começou, em altos brados, a apregoar a mensagem de Cristo, levando à letra a recomendação de “ide e espalhai a boa nova em toda a parte!”. Percebia-se a frouxidão da sua dentadura postiça, o que lhe dificultava a dicção.
O seu arengar era acompanhado da saída ininterrupta de gotículas de saliva com que, entre uma palavra e outra, salpicava os seus involuntários ouvintes.

Mas eu estava mais preocupado era em não perder de vista aquela bela mulher. Peguei num lenço de papel que trazia no bolso e rabisquei rapidamente o meu nº de telefone... Já próximo do Rossio, levantei-me, enchi-me de coragem e, antes de sair, entreguei o lenço àquela mulher.

Ao mesmo tempo, o velho pregador entusiasmou-se no sermão e disparou contra a formosa mulher ,um consistente e avantajado perdigoto, que a atingiu em cheio na testa.

O comboio já começava a abrandar para a entrada na estação do Rossio.

Ela com um sorriso constrangido, aproveitou o lenço de papel que eu lhe dera, desdobrou-o e antes que eu esboçasse qualquer reacção, esfregou-o na testa limpando o cuspo com que o pregador a tinha atingido durante a prelecção.

Virou-se para mim e disse-me educadamente:

- Muito obrigado, senhor...

E devolveu-me o papel! Sem sequer se ter apercebido que eu tinha lá escrito o nº de telefone!
Do lado de fora da carruagem, em plena estação, vi o comboio arrancar de novo. Através da janela , vi, a distanciarem-se, aqueles belos olhos negros, aquele lindo sorriso e aquele enorme borrão de tinta azul que lhe ficara a manchar a testa.

Na minha mão, o lenço de papel amassado, com o nº de telefone esborratado, que ela, com cortesia, me devolvera... Rui Felício

15 CONTOS PARA NADA!


O Alberto, caixeiro viajante, vivia em Coimbra, mas passava a semana fora, a vender os seus produtos por todo o País.
Sempre que calhava passar por Penamacor, hospedava-se na Pensão Alzira. Era como se já fosse da casa. A Alzira e o João, seu marido tratavam-no como se fosse da família.
Certa noite, depois de jantar, sabendo que o João tinha ido a Lisboa tratar de um assunto e que o comboio da Beira Baixa só o traria de volta cerca da uma da manhã, dirigiu um lânguido olhar à Alzira e fez-lhe uma inesperada proposta. Dava-lhe 10 contos se ela fosse para a cama com ele antes de chegar o marido.
Ela saiu da sala esbaforida e voltou pouco depois com um enorme facalhão, com ar ameaçador.
Disse ao Alberto que até não lhe desagradava a ideia, mas que jamais faria nada sem que o marido concordasse. Por isso, iriam esperar pela sua chegada e ela perguntar-lhe-ia se ele a autorizaria a aceitar o negócio.
O Alberto, aflito, ainda lhe pediu várias vezes para ela esquecer a proposta que num momento de loucura ele lhe fizera.
Mas a Alzira estava decidida! Apontou-lhe a faca perto da garganta. Esperariam e ela faria aquilo que o marido achasse melhor.
Por volta das duas da manhã, o João entra em casa, beija a mulher, olha o Alfredo compungido e encolhido a um canto e perguntou o que se passava.
- Aqui o nosso amigo Sr. Alberto fez-me uma proposta muito interessante! - disse a Alzira.
- Ofereceu-me 10 contos para nos comprar aquela mula velha e meio cega que temos no quintal. Mas eu não quis decidir nada sem tu vires. Resolve tu! – continuou ela, dirigindo-se ao João...
O Alberto, até aí, calado e assustado, fez um sorriso rasgado, virou-se para o João e disse-lhe:
- A D. Alzira está equivocada Sr. João. Eu ofereci foram 15 contos.
O João, espantado, tartamudeou para a mulher:
- Oh Alzira, então era preciso esperares por mim? Aquela pileca nem um conto de réis vale, mulher!
Olhou o Alberto e disse-lhe:
- Meu amigo, a mula é sua! Dê cá os 15 contos!
No dia seguinte, o Alberto arrastou a mula por uma corda a caminho da fronteira. Dois quilómetros mais à frente, puxou da pistola que habitualmente trazia consigo, deu dois tiros no animal e encaminhou-se à estação de Fatela para apanhar o comboio...

Rui Felício

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

OCASO


Ele já estava velho.
Não sorria. Ou quase não sorria. O seu único momento de felicidade, se é que se pode chamar felicidade a um ténue e imperceptível esgar, era quando se sentava em frente da casa para assistir ao pôr-do-sol. Ao lento mergulhar no mar, daquela bola de fogo, lá na linha do horizonte...
Desde a morte da mulher há cinco anos, só isso lhe dava algum prazer. Quando não chovia, sentava-se na cadeira de baloiço no quintal da sua velha casa de pedra às cinco tarde, e só dali saía quando o último fogacho de luz atirada pelo sol desaparecia por completo.
Foi assim desde que enviuvou...
Mas em meados de Janeiro ou Fevereiro, armou-se burburinho no terreno baldio em frente à sua casa. Tapumes, tijolos, areia, cimento, uma grua... Barulho infernal durante o dia. E aos poucos foi surgindo no caminho uma torre residencial que lhe obstruía a visão do mar.
Era o progresso! O velho não resmungou. Nem sequer expressou qualquer indignação. Ainda lhe disseram para reclamar na Câmara de Mafra, mas recusou, ciente da sua impotência...

Morreu no verão do ano passado... É normal os velhos morrerem...
Hoje, quase um ano depois, os moradores da torre desfrutam do melhor pôr-do-sol da Ericeira, mas são raras as vezes que dão uma espreitadela apressada pela janela.A azáfama da vida não lhes deixa tempo para isso...
Basta-lhes dizer aos amigos que o seu apartamento tem uma vista fantástica, um pôr-do-sol inigualável.
É o ter em vez do ser...A felicidade para eles é uma coisa muito mais complexa do que era a do velho que morreu.

Rui Felicio

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

ALMOÇO NO DONA ELVIRA


Um beijinho à Graça Gaspar durante o almoço...

Ainda no Samambaia, o Tonito Dias encarregou-se de marcar mesa, pelo telemóvel, para o almoço de uma dúzia e meia de convivas.
Já no Dona Elvira, tive o privilégio de ficar sentado a seu lado, em frente ao Quito e ao seu e nosso amigo Henrique, de Santo Tirso, que no fim do repasto bem regado, tocou e cantou uma balada de sua autoria, dedicada aos coimbrões do Bairro.
A beleza do poema e da música, comoveram-me de forma indisfarçável. Os olhos humedecidos do Quito mostravam que eu não era o único. Aquela balada foi o catalisador da latente saudade que os risos nervosos não conseguem esconder.
As recordações da nossa juventude no Bairro saltam e tomam vida, de cada vez que se proporcionam estes convívios. A carapaça dos convencionalismos que a vida foi construindo à nossa volta, desaparece. Propositadamente, afastamos o formalismo protector  que as nossas diversificadas actividades nos impuseram. Ainda que por efémeros instantes, voltamos a ter outra vez vinte anos!
Ao meu lado, o Tonito Dias, talvez para disfarçar a sua própria comoção, no fim da balada do Henrique, debitou duas ou três curtas e sintéticas tiradas filosóficas a que nos habituou, proferindo a sentença final:
- Oh companheiros, isto não há dinheiro que pague!
Por coincidência, nesse mesmo momento, a empregada dirigia-se à mesa com a conta.
Ficou surpreendida e sem saber bem o que fazer, quando lhe dissemos, com ar compenetrado:
- Olhe menina, leve lá a conta porque, como aqui estávamos a dizer, “não há dinheiro que pague!”
  
Rui Felício

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

AGONIA EM FRENTE AO GRECO


O Sr. Dias usava dentadura postiça...[Clique]
O seu fiel Tabú acompanhava-o sempre, parecendo orgulhoso do sorriso luminoso do dono e este da amizade e fidelidade do cão rafeiro que, com ele, partilhava um casebre ali para os lados da Quinta das Flores. Certa noite, o Tabú fitava apreensivo o seu dono, ao vê-lo, agoniado, em frente ao portão do GRECO, meter os dedos à garganta e provocar um abundante vómito, depois de ter estado numa patuscada no Capim, onde comeu de tudo e em quantidade, bebendo talvez para além da marca.
O cão lambia e saboreava o vomitado, e de súbito abocanhou, sôfrego e apressado, a dentadura do dono que, no meio dos espasmos, se lhe soltara, caindo no chão.
O Sr. Dias ainda tentou arrebatá-la da boca do Tabú, mas este, obedecendo ao seu instinto, rosnou-lhe e engoliu-a.
Com dificuldade em articular as palavras o Sr. Dias berrou-lhe, ameaçou-o, ordenou-lhe que lhe devolvesse os seus dentes. Mas o Tabú, de rabo entre as pernas, parecia querer dizer-lhe que já nada havia a fazer. Já os tinha no estômago...
O dono levou-o para casa e fez-lhe um clister. Era a única forma, expedita, de apressar a saída da dentadura, através do ânus do cão. Era preciso que ele defecasse! E quanto mais depressa melhor!
Pacientemente, sentado, com a cabeça entre as mãos, O Sr. Dias esperou, esperou...
Até que, finalmente, o cão expeliu toda a carga que lhe enchia e magoava os intestinos.

No dia seguinte, o Tabú parecia mais orgulhoso do que nunca, ao olhar o Sr. Dias passear-se pelo Bairro, cumprimentando quem passava e exibindo ostensivamente o seu belo sorriso...
Aquele cão sentia que, agora, também já era um pouco dono de uma parte do seu dono...
Rui Felício

AMOR UTÓPICO


Envolveu sem pressa as curvas generosas do seu corpo com a toalha macia de feltro.Em movimentos suaves como carícias, aquela mulher voluptuosa ia secando a pele húmida, convidativa, nos mais recônditos lugares, com uma destreza que jamais nenhum amante seria capaz de fazer.
Fechou a janela para impedir que o vapor quente da água se escapasse da casa de banho.
Olhou o espelho que reflectia a sua imagem desde o rosto até um pouco abaixo da cintura.
A sua curiosidade feminina levou-a a deixar cair a toalha e observou-se demoradamente...
Com os olhos fixos no espelho perguntou-se mentalmente a si mesma o que procurava ela.

Algum enigmático segredo se mantinha oculto e inexplicado. Uma mulher era apenas aquilo que ela estava a ver? Não seria necessário redefinir as concepções de pecado, de amor, de humanismo, de vida?
Alguma célula mal concebida não estaria em falta ou perdida por um erro de paralaxe que tudo distorcia? Que estranho que ela se sentisse apenas e só aquilo que via!

A ígnea neblina do vapor de água ia tornando a imagem no espelho menos nítida. Sacudiu a cabeça, abandonou estes pensamentos e procurou os chinelos. Claro que não há mais nada, pensou conformada. Virou as costas ao espelho e saiu da casa de banho...
O espelho quis chamá-la, explicar-lhe. Ela não era só o que ele lhe mostrava na sua gelada e estática postura. Aquele corpo seria diferente, quando ela percebesse a verdade mais irrefutável. A verdade do amor que ela nunca teve...

Desgraçadamente ele sofre o seu idílio sem esperança, a indiferença daquela bela mulher dói-lhe, mas a sua rigidez não a atrai. Todos os dias a vê, nua, apetecível, mas nada pode fazer. Será que ela não percebe que não é ele que a reflecte mas sim ela que o reflecte a ele?  

Se por dentro da sua superfície brilhante circulassem vasos sanguíneos, o espelho teria empalidecido quando, subitamente, a viu regressar à casa de banho de onde tinha acabado de sair. Teria ela percebido os seus pensamentos? Teria ouvido os seus sussurros? Teria compreendido o seu drama, o seu amor por ela? Inquietou-se, receoso mas esperançado.

Ouviu-a murmurar enquanto desligava o interruptor, que seria certamente por ela se esquecer tantas vezes de apagar a luz da casa de banho que a conta da electricidade era sempre tão alta no fim do mês.
Deixou o espelho na escuridão. Sem a sua imagem, sem pensamentos românticos, sem utopias, ele nada poderia agora reflectir. Tornou-se nada...
Voltou a ser uma massa fixa à parede sem objectivos, sem significado, como um peito sem amor.

Foi então que todas as pequenas gotas do vapor de água começaram a deslizar pela face nua do espelho.
Como lágrimas...

Rui Felício

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

FUI GUARDA-REDES DE HOQUEI

Nunca consegui aprender a patinar, embora o tivesse tentado algumas vezes..
Em miudo, joguei hóquei muitas vezes no bairro, mas com troços de couve e com os bueiros a servirem de balizas.
Mas nessas partidas os jogadores não andavam de patins.
Anos mais tarde, em 1967, eu era dirigente da Secção de Ténis de Mesa da Associação Académica, e por isso convivi bastante com a malta das outras secções desportivas, entre as quais a de Hoquei em Patins.
Havia um grupo muito ligado a essa modalidade na Rua do Brasil. Certo dia, combinaram ir assistir a um jogo que a Académica ia disputar fora, com o Minas da Panasqueira.
Só já me consigo lembrar do Chichorro que integrava esse grupo e que, tal como eu, tambem alinhou nessa viagem de apoio à Briosa.
Saíram de Coimbra uns seis carros, onde viajaram os jogadores, directores e acompanhantes, distribuídos aleatoriamente por cada um deles. Os primeiros dois carros a chegar, transportavam quatro dos jogadores da equipa, um director, os equipamentos e eu próprio.
Enquanto não chegavam os restantes carros, os jogadores foram-se equipando e a hora do jogo foi-se aproximando. O atraso na chegada dos outros quatro carros começou a tornar-se preocupante e com razão.
Naquele tempo não havia telemóveis para sabermos o que se passava. De facto, o jogo iria iniciar-se daí a uns dez minutos e era preciso a equipa apresentar-se com pelo menos cinco elementos.
Faltava um, portanto.
Seria uma vergonha a Académica entrar em campo desfalcada. Repentinamente, dei comigo a ser olhado insistentemente por todos os presentes no balneário.
- Amigo Felício, tens que jogar enquanto o resto da malta não aparece! - disse um
- Eu nem sei andar de patins!
esclareci eu abrindo os braços
- E tenho medo de levar alguma bolada! acrescentei temeroso...
Um a um todos me apresentaram argumentos para me convencerem a alinhar:
- Que para estar à baliza não é preciso saber patinar, que basta estar apoiado nas pontas das botas, que as caneleiras e a máscara me protegeriam das boladas, e, argumento decisivo face ao meu amor à Briosa, que eu certamente não quereria deixar a nossa Académica passar pela vergonha de entrar em campo só com quatro jogadores.
- Poderia até ser considerada uma ofensa ao Clube local e gerar algum incidente desagradável com o público!
Acedi, embora contrariado. O bom nome da minha Académica estava em primeiro lugar.
Entrei no ringue a abarrotar de público, de braço dado com dois dos hoquistas da Académica que, fingindo conversar comigo me iam disfarçadamente amparando, um de cada lado, para eu não me desiquilibrar.
Por ordem do juiz da partida as equipas alinharam no meio do ringue em frente à bancada central e quando o seu apito soou, automaticamente todos os jogadores se perfilaram com os braços estendidos ao longo do corpo, para saudarem a assistência.
Foi nesse exacto momento que, deixando de ter o amparo dos meus colegas, comecei lentamente a deslizar, e cambaleando, ganhei gradualmente maior velocidade em direcção à tabela do campo à minha frente.
Poucos segundos depois estatelei-me contra a vedação, saltando-me stick e caneleiras...
Ainda ouvi um espectador gargalhando, gritar:
- Eh pá os gajos nem sabem andar de patins!
Lá me levantaram e conduziram para a baliza, onde me agachei envergonhado e pedindo aos deuses para que o jogo terminasse depressa.
Joguei a primeira parte toda. Perto do intervalo tinham chegado os outros carros. A mudança de uma roda de um deles que tinha furado, fez atrasar a comitiva.
Sofri apenas cindo golos!
Não sofri mais porque nalguns remates não consegui desviar-me a tempo...
Rui Felício