Aos 18 anos, o Jaime concluiu o 5º ano do liceu e começou a trabalhar na secretaria dos Hospitais da Universidade de Coimbra. Outros tempos aqueles, em que um mínimo de habilitações académicas eram passaporte garantido para arranjar emprego.
Como acontece com a maior parte dos artistas e dos poetas, o Jaime era exageradamente tímido. Dotado de uma enorme sensibilidade, sabia transmiti-la, como poucos, para as inúmeras, belas e bem construídas poesias que diariamente escrevia ou rascunhava nos guardanapos de papel do café Piolho, do Oásis ou do Mónaco, mas terrivelmente inseguro como era, guardava-as para si às escondidas de todos.
Relutante, só as mostrava aos amigos mais próximos, sempre com um ar receoso da crítica ou dos gracejos que sobre elas pudessem fazer.
O seu ar habitualmente melancólico tinha-se tornado desde há uns tempos, mais abatido e ansioso do que o costume, o que levou o Vitor, seu colega de emprego, extrovertido e boémio, a perguntar-lhe se andava doente, se tinha algum problema, ao que o Jaime respondeu, hesitante e envergonhado, que andava loucamente apaixonado pela enfermeira Natália, mas que não tinha coragem de lhe declarar o seu amor.
O Vitor assobiou baixinho, estalou os dedos e sentenciou:
- Eh pá, tu não te assoas a qualquer guardanapo! Essa miúda é um espanto, boa como o milho, mas olha que não é fácil aceder-lhe! Porque é que não lhe escreves uns poemas? Tu tens jeito e não há mulher que não amoleça quando lhe dão flores ou lhe fazem uns versos bonitos.
O Jaime argumentou que não seria capaz de chegar ao pé dela e, sem mais nem menos, dar-lhe um papel com poesias suas. Aliás já escrevera várias a pensar nela, no silêncio do seu quarto, mas faltava-lhe a coragem para lhas mostrar.
O Vitor, autoritário, ordenou-lhe que trouxesse um desse poemas no dia seguinte que ele próprio se encarregaria de lho entregar. O Jaime agradeceu-lhe reconhecido a amizade e, a partir daí, quase dia sim dia não entregava ao Vitor uma nova poesia dedicada à sua amada... que este religiosamente levava à Natália.
O Jaime, ao fim de mais de um mês perguntou ao amigo se ela não estaria já disponível para um encontro, agora que o ia conhecendo através dos seus poemas, ao que o Vitor, dando-lhe uma palmada nas costas, lhe retorquiu:
- Calma! Está quase, pá, está quase...Faz lá mais uns versos que ela não tarda a cair...
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Subitamente, o Vitor e a enfermeira foram transferidos quase na mesma altura para o Hospital dos Capuchos em Lisboa. O Jaime nunca mais soube nada deles e acabou por esquecer aquele amor que o tinha mortificado.
Um dia, no apartamento de Oeiras onde viviam, a Natália olhou o Vitor e confessou-lhe que se apaixonara por ele, mais pelos belos poemas que ele lhe oferecia durante o namoro, do que por outra qualquer razão.
Mas andava triste porque, desde que se tinham casado, ele nunca mais lhe tinha feito nenhuma poesia!
- Faz-me um poema daqueles que só tu sabes fazer, meu amor. Fazes? Prometes?
O Vitor desculpou-se. Explicou-lhe que, desde que vieram para Lisboa tinha perdido a inspiração...
Rui Felicio
Rui Felicio