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segunda-feira, 25 de março de 2013

SIM, ELES FALAM...


 
Em dias de festa trazem nas lapelas, irrepreensivelmente engomadas, rosas mártires arrancadas a golpes de navalha dos braços das plantas suas mães, quando desabrochavam de desejo, quando abriam o seu pólen aos beijos das abelhas.
Não percebem que o escorrer da seiva é a sua morte, que o veludo das suas pétalas ficará ressequido sem ela, que o caixote do lixo imundo acabará por ser o seu destino em poucas horas.
Para alimentarem fábricas de aglomerados de madeira, mutilam as árvores, deformam-nas, matam-nas até.
Enclausuram em campos de concentração plastificados, certas plantas que fenecem saudosas do humus, do sol e da chuva.
Arrasam montes, entulham vales, e destroem nesse frenesim o habitat de milhões de seres queo equilibram a Natureza, para construirem gaiolas onde depois se exilam, vivem e dormem, calafetados do frio, do barulho do vento, dos cheiros do rosmaninho, das flores silvestres, da
terra molhada pela chuva.
Perfuram o solo e extraem das profundezas, até à sua exaustão, os hidrocarbonetos com que alimentam as latas com rodas em que se transportam.
Um dia a terra será oca como uma casca de ovo vazia e calva como a cabeça de um sábio,
Pouco falta para que os rios e os mares se tornem focos de doenças mortíferas, à medida que vão recebendo os detritos venenosos que eles fabricam e produzem.

O olhar da mulher na agonia da infertilidade doentia, deixará de ser o olhar do amor e passará a reflectir, baço, a aflição do naufrágio.
Na desmesurada ânsia do lucro, produzirão cada vez mais bens inúteis incentivando o seu consumo escusado.
Para potenciarem o escoamento da sua desenfreada fabricação, emprestarão a altos juros, o dinheiro necessário para que outros comprem as suas inutilidades, ganhando com a venda e ganhando com o crédito.

Inventarão dores para venderem anestésicos, desencadearão guerras para venderem armas, cultivarão plantas psicotrópicas, para venderem droga, construirão hospitais para cobrarem altos preços na cura de drogados.
Transformarão a Terra na catedral do sofrimento como fim último da farsa sinistra que representam.
E dizem-se civilizados! E consideram-se racionais! E, pedantes, atribuem-se o epíteto de raça superior!
.........................

Assim falava o Junior, velho e sábio cão pastor da Serra da Estrela, discorrendo sobre a estupidez humana.
Escutava-o atenta e deleitada, a sua amiga Vivaça, esperta podenga que de vez em quando latia e abanava o rabo, em sinal de assentimento.

Sim, eles falam. Os cães falam!
Assim os soubéssemos entender...


Rui Felicio

sábado, 23 de março de 2013

PASSOU-SE EM COIMBRA


Na Real República Rapó Taxo tive grandes amigos. Frequentava-a com frequência, muitas vezes para uns copos num anexo da vivenda transformado em adega, menos vezes para estudar com dois colegas que ali viviam.
Certo dia, estava o Guedes a contar à malta que o ouvia atentamente, que tinha engatado uma matrona na Alta que morava numa ruela por trás da Faculdade de Farmácia.
- Uma mulher na casa dos 40 anos, boa, matulona? – perguntou o Noronha
- Sim, ela já é um bocado descriada, mas é boa, de carnes fartas. – assentiu o Guedes.
- Chama-se Bina? – interpelou-o o Noronha, já desconfiado.
- Essa mesmo!  Só me deixa lá ir da parte da manhã, que a gaja diz que à tarde tem de trabalhar e que à noite vai lá a casa um velho sexagenário que é quem a sustenta.  De mim é que ela nunca levou um tostão. Mas como é que sabes?
- É que a mim ela só me deixa lá ir de tarde, porque de manhã tem um emprego e à noite tem um velho sexagenário que lhe vai dando uns cobres para a sua sobrevivência. Mas olha que a mesada que recebo lá de Mangualde quase nem chega para comer e por isso também nunca lhe dei nada. Além do meu corpo, claro!
As gargalhadas dos circunstantes estalaram e o Guedes e o Noronha não tiveram outro remédio senão admitirem, com risos amarelos,  que andavam os dois a ser enganados pela Bina.
Mas um nosso colega houve que em vez de rir, tinha metido a cabeça entre as mãos e as lágrimas corriam-lhe pela cara. Era o Varela, rapaz bem parecido, um tanto ingénuo, caloiro chegado nesse ano a Coimbra vindo de Trás-Os-Montes.
- Eh pá, o que é que se passa. Estás doente?, perguntou um.
Eu sou o sexagenário que vai lá à noite e que a sustenta, foi a resposta sussurrada do Varela...

Rui Felicio

BARRIGA DE ALUGUER


Em Portugal não é legalmente permitida aquilo a que se chama a “barriga de aluguer”, situação que, porém, é admitida nalguns países.

Trata-se de uma forma de possibilitar a gestação de filhos aos casais que, por infertilidade, por algum impedimento ou por outras quaisquer razões, os não conseguem ter.



Mas se o fosse, isto poderia ter-se passado:

O Simão e a sua mulher Marta, casados há vários anos, não conseguiam ter filhos. Era para os dois um enorme desgosto com o qual não se conformavam. O médico, depois de exaustivos exames a ambos, concluiu que a Marta jamais poderia engravidar.


A Vanessa disponibilizou-se para gerar um filho do Simão através de inseminação artificial. Seria “barriga de aluguer”, sob condições a negociar.


O Simão pagar-lhe-ia 3 mil euros no momento do parto, bem como os custos com a alimentação e com um seguro de saúde, enquanto durasse a gravidez.

Passaram-se nove meses e chegou o dia do nascimento. O bebé era a cara chapada do Simão que estava radiante por ter finalmente um filho, um rapagão forte e bonito.

Apressou-se, ainda na maternidade, a passar um cheque à Vanessa, da quantia combinada.


Estranhamente ela recusou o cheque, dizendo-lhe que por nenhum dinheiro abdicaria do bébé.


Afinal, ele era seu filho, ela tinha começado a amá-lo durante o tempo da gravidez e agora que o tinha ali nos seus braços, que o amamentava, estava segura de que não o entregaria fosse a quem fosse.

O Simão argumentou que, para além do acordo feito nove meses antes, ele era o pai biológico da criança!

- Ora ainda bem que diz isso diante de testemunhas, retorquiu a Vanessa, apontando as duas enfermeiras presentes no quarto da maternidade...

Na qualidade de mãe solteira, com o meu filho à minha guarda, vou intentar acção de paternidade contra si, para que me pague uma pensão de alimentos até ele atingir a maioridade.

Rui Felicio

O DIÁRIO DO DR. JOSÉ DE ALENCAR



Dia 07 de Novembro de 2011
- Que horas são?
- São onze, pai!
- O tempo passa, já jantámos há duas horas! Mas ainda há tempo para conversarmos.
- Há tempo como? Há sempre tempo...
- Hoje não. Daqui a uma hora começa o primeiro dia da tua nova vida. E tens que te levantar cedo.
- Tem razão, amanhã começo a trabalhar no Ministério.
- És jovem, com as habilitações académicas adequadas, o teu nome José de Alencar mostra a estirpe e a linhagem da nossa ancestral Família. Mas tens o ardor e os improvisos próprios dos teus vinte e cinco anos, que deves habituar-te a conter e a disfarçar.
- Não será fácil, pai. Não gosto de ocultar ou conter os meus princípios.
- Deixa-te disso! Não irás longe assim. Por isso te aconselho. Se quiseres singrar dá tempo ao tempo. Ri-te às gargalhadas das piadas insonsas do ministro. Deste ou de outro que vier a seguir. Aplaude as suas decisões estúpidas. Gaba-lhe a gravata horrorosa às bolas que ele ata sem jeito à volta do pescoço por baixo do colarinho da camisa aos quadrados que parece ter comprado na feira do relógio.
- Mas se exagero ele vai desconfiar que estou a gozar com ele...
- Isso não acontecerá! Desde novo que se habituou a que só lhe apontassem os méritos. Na escola, na universidade, como aluno e depois como professor e mais tarde no Banco para onde entrou directamente para o alto cargo de director. Não sabe nada da vida, mas como obteve altas classificações, e foi subindo na hierarquia da política desde tenra idade, nunca ninguém lhe apontou falhas. E aqueles que tiveram a desdita de o fazer foi-os afastando e sucessivamente empurrando para a rua.
- E se me for pedida a minha opinião pessoal sobre um qualquer assunto?
- Dá-me um exemplo, para ser mais fácil explicar-te.
- Bom, suponhamos que ele me pergunta o que eu acho sobre o corte dos subsídios de férias e de Natal, de que agora tanto se fala.
- Nunca digas nada sem te fundamentares em opiniões alheias. Neste caso concreto, dizes que o primeiro-ministro prometeu em campanha eleitoral que jamais sacrificaria ou reduziria o poder de compra dos trabalhadores e dos pensionistas, mas que, chegado ao governo tinha descoberto um buraco orçamental oculto colossal que os portugueses iriam ser infelizmente obrigados a colmatar. E que o líder da oposição, em nome da Pátria, até se iria abster na votação dessa decisão, viabilizando-a, embora achasse que se devia reduzir esse sacrifício a cinquenta por cento. E que até mesmo o Presidente da República tinha dito que em nome dessa mesma sua Pátria adorada, não iria vetar essa medida, embora tivesse muita pena dos sacrifícios dos seus compatriotas. E que até mesmo um dos ministros mais mediáticos do governo, que tanto está na América do Sul, em Madrid, na Argélia ou em Lisboa em directo para a televisão, concordava que essa medida tão gravosa pudesse ser objecto de negociações com a oposição, embora pensasse que o governo não tinha folga para tal negociação.
- Sim, compreendo, pai...Mas se mesmo assim, o ministro insistir para eu dar a minha própria opinião?
 - Dir-lhe-ás que confias na sua superior inteligência que saberá, melhor do que tu, tirar a mediatriz de tão abalizadas opiniões e decidir segundo o superior interesse nacional. E que tu, aplaudirás, sem reservas, seja qual for a sua sábia decisão.
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Este é o diálogo que Sua Excelência, o Presidente da República das Bananas, Dr. José de Alencar, respigou do seu diário, neste dia 07 de Novembro de 2041passados exactamente 30 anos depois de o ter escrito, para nele meditar antes do acto solene da celebração da sua recente eleição para o mais alto cargo do Estado.
Escrito em 07/11/2041

Rui Felicio

quinta-feira, 21 de março de 2013

NOS BRAÇOS DO POETA (NO DIA DA POESIA)


Aos 18 anos, o Jaime concluiu o 5º ano do liceu e começou a trabalhar na secretaria dos Hospitais da Universidade de Coimbra. Outros tempos aqueles,  em que um mínimo de habilitações académicas eram passaporte garantido para arranjar emprego.
Como acontece com a maior parte dos artistas e dos poetas, o Jaime era exageradamente tímido. Dotado de uma enorme sensibilidade, sabia transmiti-la, como poucos, para as inúmeras, belas e bem construídas poesias que diariamente escrevia ou rascunhava nos guardanapos de papel do café Piolho, do Oásis ou do Mónaco, mas terrivelmente inseguro como era, guardava-as para si às escondidas de todos.
Relutante, só as mostrava aos amigos mais próximos, sempre com um ar receoso da crítica ou dos gracejos que sobre elas pudessem fazer.
O seu ar habitualmente melancólico tinha-se tornado desde há uns tempos, mais abatido e ansioso do que o costume, o que levou o Vitor, seu colega de emprego, extrovertido e boémio, a perguntar-lhe se andava doente, se tinha algum problema, ao que o Jaime respondeu, hesitante e envergonhado, que andava loucamente apaixonado pela enfermeira Natália, mas que não tinha coragem de lhe declarar o seu amor.
  
O Vitor assobiou baixinho, estalou os dedos e sentenciou:
- Eh pá, tu não te assoas a qualquer guardanapo! Essa miúda é um espanto, boa como o milho, mas olha que não é fácil aceder-lhe! Porque é que não lhe escreves uns poemas? Tu tens jeito e não há mulher que não amoleça quando lhe dão flores ou lhe fazem uns versos bonitos.
O Jaime argumentou que não seria capaz de chegar ao pé dela e, sem mais nem menos, dar-lhe um papel com poesias suas. Aliás já escrevera várias a pensar nela, no silêncio do seu quarto, mas faltava-lhe a coragem para lhas mostrar.
O Vitor, autoritário, ordenou-lhe que trouxesse um desse poemas no dia seguinte que ele próprio se encarregaria de lho entregar. O Jaime agradeceu-lhe reconhecido a amizade e, a partir daí, quase dia sim dia não entregava ao Vitor uma nova poesia dedicada à sua amada... que este religiosamente levava à Natália.
O Jaime, ao fim de mais de um mês perguntou ao amigo se ela não estaria já disponível para um encontro, agora que o ia conhecendo através dos seus poemas, ao que o Vitor, dando-lhe uma palmada nas costas, lhe retorquiu:
- Calma! Está quase, pá, está quase...Faz lá mais uns versos que ela não tarda a cair...
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Subitamente, o Vitor e a enfermeira foram transferidos quase na mesma altura para o Hospital dos Capuchos em Lisboa. O Jaime nunca mais soube nada deles e acabou por esquecer aquele amor que o tinha mortificado.
Um dia, no apartamento de Oeiras onde viviam, a Natália olhou o Vitor e confessou-lhe que se apaixonara por ele, mais pelos belos poemas que ele lhe oferecia durante o namoro, do que por outra qualquer razão.

Mas andava triste porque, desde que se tinham casado, ele nunca mais lhe tinha feito nenhuma poesia!
- Faz-me um poema daqueles que só tu sabes fazer, meu amor. Fazes? Prometes?

O Vitor desculpou-se. Explicou-lhe que, desde que vieram para Lisboa tinha perdido a inspiração...

Rui Felicio

sábado, 16 de março de 2013

UMA QUESTÃO DE FÉ


Na conferência de Imprensa dada pelo ministro Vitor Gaspar e alguns secretários de Estado, uma linha comum ligou os seus herméticos discursos.
Nenhuma das perguntas feitas pelos jornalistas presentes obteve qualquer resposta objectiva e concreta, refugiando-se os conferentes em lugares comuns, frases feitas, manifestações de intenção e fé, muita fé.

Senão vejamos:

Às perguntas sobre se o governo finalmente admitia que tinha falhado nas metas do défice que tinha declarado há um ano, Vitor Gaspar refugiou-se na enunciação dos vários conceitos de défice estrutural, para finalmente declarar “ex catedra” que tinha fé, muita fé, em que os objectivos iam ser cumpridos.
Ou seja, tudo se resume a uma questão de fé...

Questionado sobre quantos trabalhadores da Função Pública e da RTP iam ser despedidos, o secretário de Estado Helder Rosalino disse que iria reunir-se para a semana com os parceiros sociais e que, portanto, não estava ainda em condições de responder à pergunta antes disso.
Mas afirmou que tinha muita esperança e fé em que tudo iria correr bem.
Ou seja, tudo se resume a uma questão de fé...

Interrogado sobre se a propalada reforma do Estado consistia somente em sacar mais 4 mil milhões aos depauperados bolsos dos contribuintes, o secretário de Estado Carlos Moedas, especialista em modelos Excel, disse que acreditava e tinha esperança que os esforços dos portugueses seriam recompensados em prazo curto.
Ou seja, tudo se resume a uma questão de fé...

Em resposta à pergunta sobre se terão valido a pena tantos sacrificios do povo, quando afinal, o governo nem sequer conseguiu reduzir o défice orçamental a que se tinha proposto e que considerava ser essencial para o chamado ajustamento das finanças de Portugal, o secretário de Estado Luis Morais Sarmento alegou que estava confiante em que os objectivos serão cumpridos graças ao comportamento louvável dos portugueses.
Ou seja, tudo se resume a uma questão de fé...

Com esta equipa, liderada por um não menos confiante primeiro-ministro que em declarações à televisão corroborou todas estas palavrosas e ocas declarações, sou obrigado a concluir que tudo se resume a uma questão de fé...

Ou seja, a menos que expulsemos esta gente rapidamente, devemos, com abertura de espírito, respeitar a sua fé e as suas convicções.
Que cada um deles fique com as suas fezes!


Rui Felicio

domingo, 24 de fevereiro de 2013

INJUSTIÇA E DOR

Sentado à lareira, contemplo as brasas incandescentes, o crepitar dos troncos, as labaredas a lamber as paredes de tijolo.
Discorro sobre a justiça.
Não sobre aquela que os humanos desenharam e construiram que é composta pela dialética, pelas provas e contraprovas, pelos argumentos e pelos formalismos em que, queremos acreditar, na nossa presunção e na nossa ignorância, hão-de conduzir ao apuramento da verdade.
E ao consequente castigo dos culpados.

Não, não é sobre essa que me questiono!
Porque sabemos que essa justiça, na sua génese, padece do pecado original da imperfeição humana.
A justiça em que penso é outra, é a ideal, é aquela em que a infalibilidade deveria imperar, indicando-nos as causas e as razões das coisas.

É um raciocinio feito ao contrário, aquele que desenvolvo.
Em que parto do castigo já aplicado para perceber a sua razão de ser, para conhecer os factos que a ele conduziram.
Sem respostas, pergunto, choro, grito revoltado, olho retrospectivamente os acontecimentos, procuro neles um fio condutor, uma lógica.
Mas nada!

Sinto-me impotente para entender o que me sucedeu.
Disponho-me a assumir as minhas culpas se as houve.
Sujeito-me à punição mais severa, em troca desta que me foi dada sem qualquer explicação, sem nenhuma acusação sequer.
Abdico até da minha defesa se necessário for.
Mas imploro a misericórdia da substituição da minha pena!
Que impiedoso universo é este que pune sem julgar?
Que deplorável justiça é esta que, sem a menor explicação, me levou o meu filho na idade dos sonhos?

Rui Felicio