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terça-feira, 25 de junho de 2013

TIMIDEZ EM COIMBRA


Viam-se todas as manhãs...
Ele, segurando uma pasta de cabedal, a descer a Av. Sá da Bandeira em direcção à baixa e ela, carteira a tiracolo, a subir a caminho da Praça da República.
O Carlos Marques, elegante, aprumado, bem vestido, era um jovem alto, bonito, bem parecido. Tinha acabado o curso de Direito há um ano, estagiando agora num escritório de advogados da Rua Ferreira Borges. Fazia-o apenas para ganhar tarimba, porque aguardava resposta a um requerimento que fez para ingressar num serviço público adequado à sua formação jurídica, porque era aí que desejava fazer carreira, longe dos holofotes de teatro que considerava ser uma sala de audiências de um tribunal.
Sofria de uma profunda e agoniante timidez, que o fizera passar obscuro pelos bancos da faculdade, fechado em casa às voltas com os livros, longe das folias e da boémia coimbrã. Achava que essa forma de ser o desaconselhava de abraçar a advocacia, profissão para a qual, segundo pensava, não estaria talhado.

A Marilia, moça de olhos vivos, cheia de vida e sorriso cativante, olhava aquele belo rapaz ainda ele vinha longe, sempre à espera de um gesto seu, de um sorriso, algo que lhe mostrasse que também ele reparava nela.
Sentia-se atraída pela sua esbelta figura e estaria pronta a aprofundar o conhecimento com ele, talvez um relacionamento, um namoro até, mas os dias sucediam-se e nada da parte dele o proporcionava.
Por vezes os olhares encontravam-se, mas quando assim sucedia ele desviava propositadamente os olhos, parecendo envergonhado, incomodado, como se tivesse sido apanhado em flagrante delito.

O que a Marilia não sonhava é que o Carlos estava perdidamente apaixonado por ela e que só a timidez e a insegurança o impediam de o manifestar.
Uma noite, na solidão do seu quarto alugado na Rua Tenente Valadim, o Carlos encheu-se de coragem e decidiu escrever um bilhete que de manhã lhe entregaria quando passasse por ela.
Na manhã seguinte, afrouxou o passo sem parar, deu-lhe o papelinho, dobrado em quatro, quase sem olhar para ela e prosseguiu a marcha cabisbaixo, já intimamente arrependido de o ter feito.

Surpreendida a Marilia, desdobrou a bilhete e leu as palavras cuidadosamente desenhadas. Era uma frase simples, mas agradavelmente reveladora: “Gosto muito de si. Desculpe!.”
Olhou para trás mas ele já ia longe. Nem sequer sabia o seu nome, nem onde trabalhava, nada! Especada, ficou a vê-lo desaparecer na curva da Escola Avelar Brotero.
No dia seguinte, a Marilia esperou por ele nas escadas do Teatro Avenida, firmemente disposta a enfrentá-lo.
Quando ele se aproximou, colocou-se ostensivamente à sua frente barrando-lhe o caminho e disse-lhe com um sorriso:
- Obrigada pelo seu bilhetinho de ontem. Quero que saiba que também gosto de si.
Pareceu-lhe ver um ligeiro rubor na face quando ele se atreveu a dizer-lhe:
- Gostava que pudessemos encontrar-nos para nos conhecermos e conversarmos.
- Também gostaria muito, respondeu-lhe a Marilia, mas infelizmente, ainda esta noite, vou para as Termas de São Pedro do Sul e ficarei por lá durante um mês. O meu pai todos anos lá vai fazer tratamento a uma doença de varizes que o apoquenta.
- Combinaremos então quando regressar, se estiver de acordo, propôs-lhe o Carlos, pesaroso, mas esperançado.
- Está bem, respondeu a Marilia. Até daqui a um mês então...
E seguiram cada um para o seu destino. Na atrapalhação do momento, nem ao menos se lembraram de perguntar um ao outro como se chamavam.
--------------
Uns dias depois o Carlos Marques recebeu um oficio do Ministério do Interior, a comunicar-lhe a sua admissão ao serviço a que concorrera.Era uma boa noticia!
Entretanto, em São Pedro do Sul, a Marilia encontrou um antigo colega de escola que não via desde há muitos anos.
Era o Tibúrcio, agora médico a trabalhar nas Termas.
Todos os dias se encontravam e rapidamente a Marilia esqueceu o tal rapaz de Coimbra. Começaram a namorar.
Não era um namoro de férias.
Estavam verdadeiramente apaixonados, a tal ponto que decidiram casar-se o mais brevemente possivel.
Afinal já se conheciam desde crianças e não tinham quaisquer dúvidas sobre a firmeza do seu amor.

O Carlos é que, já no seu novo trabalho, não conseguia deixar de pensar na sua amada.
Contava os dias para o regresso dela a Coimbra, para a ver, para lhe confessar o delirio da sua paixão, já imaginando deleitado os beijos que um dia trocariam quando começassem a namorar.
Vivia ansioso, de coração apertado pela paixão quase doentia que o acometera.
Mas o mês passou, os dias e as semanas foram correndo, e a Marilia nunca mais apareceu pela Av. Sá da Bandeira.
E ele penalizava-se por, estúpidamente, nem sequer lhe ter pedido a morada.
Agora, não fazia a minima ideia de como a encontrar, de como a procurar.


Mal adivinhava o Carlos que ela deixara o emprego e por isso nunca mais passara na avenida como antes. Andava atarefada a tratar dos preparativos para o casamento com o Tibúrcio.

A data foi aprazada, trataram da papelada e, finalmente, no dia da cerimónia, a Marilia e o Tibúrcio foram à Conservatória do Registo Civil para celebrarem o casamento.
Nervosos e irradiando felicidade, os noivos, as testemunhas, os convidados e familiares, entraram no salão de actos da Conservatória.
Esperaram uns minutos e a funcionária informou-os que o Dr. Carlos Marques, Adjunto do Conservador, estava quase a chegar e que seria ele a celebrar o matrimónio.






Rui Felicio

segunda-feira, 17 de junho de 2013

DISCURSO À ESTÁTUA





Em resposta ao desafio do Carlos Viana...
 
 

Salvé Doutor Joaquim António de Aguiar, estrénuo defensor do cartismo e conimbricense de gema galada!

Foi com estas palavras que me dirigi à estátua, estendendo o braço numa saudação romana, a capa traçada à tricana, um capacete de cartolina e uma espada de madeira, sob o olhar protector do Zé Maria, fitado de Direito que se formou aos 35 anos de idade depois ter andado por Coimbra mais de quinze, que me tinha mobilizado para o acompanhar na Latada e de quem fiquei amigo para o resto da vida.
Era a minha sina como caloiro naquele ano distante de 1963, a que me submetia. Lembro-me de estarem em volta a assistir, entre muitos outros, o Lucas Pires, o Vital Moreira, o Fernando Torres, o Carlos Encarnação, este último também caloiro como eu.
Visto à distância, este quadro parecia uma premonição do variado leque politico parlamentar que compuseram anos mais tarde.
É curioso que sendo eu verdadeiramente um tímido, nestas teatrices a voz e o gesto soltavam-se-me como se num palco estivesse plantado.


E prossegui com gestos largos e voz pausada:

Sei que petrificado como está, a sua voz não será audivel ao comum dos mortais.
O que não acontece comigo porque, embora sendo mortal não sou comum e tenho o dom de assimilar mensagens telepáticas.
Consigo portanto ouvir perfeitamente as suas sábias palavras e ensinamentos que terei a maior honra em transmitir à douta e ilustre plateia que me rodeia, ávida de enriquecer os seus já vastos conhecimentos adquiridos na mesma prestigiosa Universidade onde Vossa Excelência estudou e leccionou há mais de um século atrás.
E as três questões mais obscuras na mente dos nóveis doutores aqui presentes, que me encarregaram desta missão, às quais humildemente lhe requeiro a
bondade de os esclarecer, são as seguintes:

A primeira é a de saber porque alcunharam V. Exª com o pejorativo epíteto de Mata-Frades.

 

A segunda é a de nos revelar o que escreve e porque escreve na folha de papel que a sua mão esquerda segura.
E a terceira e última é a de nos poder esclarecer como consegue escrever algo, se não se vislumbra qualquer tinteiro onde possa molhar o aparo da pena que a sua mão direita sustenta.
Suspendi a interpelação, pedi silêncio e de ouvido a escuta e os olhos no infinito, fingi aguardar pela resposta da estátua.
Voltei-me de costas para a estátua e transmiti aos presentes as respostas que telepáticamente tinha recebido:

O insigne Doutor de Leis aqui há longos anos ao frio, ao sol e à chuva transmite aos ilustres circunstantes e em resposta ao por mim questionado, o seguinte:

Que foi injustamente alcunhado de Mata-Frades, por ter feito aprovar uma lei anti-clerical que nacionalizava os bens das ordens religiosas, porque em seu entender essa riqueza era necessária à Fazenda Nacional para suprir graves carências públicas.
Fez questão de esclarecer que ficaram de fora as ordens religiosas femininas e que por isso não lhe chamaram também o Mata-Freiras.

Quanto à segunda questão, O Doutor Aguiar informa-nos que o papel que tem na mão serve para anotar os nomes dos infractores às posturas municipais, designadamente a do Presidente Dr. Moura Relvas, que instituiu uma multa às vendedeiras dos arrabaldes que entrassem descalças na cidade.

Relativamente à terceira e última dúvida suscitada por mim, fungou e disse-me para olhar bem. A pena que tinha na mão direita era de tinta permanente, pelo que não precisava de tinteiro. E que, se precisasse, tinha a aquiescência do Director do Banco de Portugal, ali ao lado, para a molhar no tinteiro dele...



Rui Felicio

quinta-feira, 13 de junho de 2013

CIRCULAÇÃO MONETÁRIA



Era conhecido no bairro onde morava, como um simpático estoira-vergas, sempre envolvido em noitadas com muito álcool, discotecas, mulheres, patuscadas...
A meio do mês já costumava ter o dinheiro do ordenado totalmente espatifado, mas a Dona Gertrudes, sua mulher, ia segurando as pontas do orçamento familiar com os proventos que amealhava com os trabalhos de modista bem afreguesada que, de manhã à noite, ia executando em casa.
Mas depois de o Adrião Monteiro ter caido no desemprego e, especialmente, quando se esgotou o periodo em que andou a receber o magro subsidio, as coisas complicaram-se.
A Gertrudes trabalhava cada vez mais, mas, felizmente, tinha conseguido arranjar uma boa cliente, uma senhora que lhe encomendava belos vestidos.
Via-se que era uma senhora fina e que lhe pagava pontualmente o trabalho.
O Adrião, apesar das dificuldades financeiras, continuava a fazer o mesmo tipo de vida que fazia antes.
Andava até enrolado com a Carmen, uma espanhola de Málaga que há tempos conhecera numa boite de alterne dos arredores.
Estava-lhe na massa do sangue!

Passava as tardes fora de casa, prolongando muitas vezes as ausências pela noite dentro, sempre à custa dos dinheiros que pedia à Gertrudes que, condoída, achava que ele precisava de espairecer.
- Meu amor, custa-me tanto ter que te pedir, mas não me consegues arranjar cem euros?, perguntou, naquela manhã, o Adrião à mulher, enquanto lhe afagava o cabelo com carinho.
A Gertrudes virou para ele os olhos cansados, desfez-se da agulha e da linha com que costurava, sorriu-lhe e retribuiu o afago acariciando-lhe a mão.
Levantou-se e foi ao quarto onde tinha guardada uma nota de cem euros num pequeno guarda jóias de louça.
Desdobrou-a e reparou que alguém tinha escrito num canto, os dizeres:
“Nunca mais voltarás à minha mão”
Achou graça e escreveu a lápis, por baixo dos tais dizeres:
“Nem à minha!”
Voltou à sala e entregou-a ao marido que, refastelado no sofá, seguia atento o Big Brother.
- Obrigado meu amor. És uma querida, disse o Adrião, levantando-se e dando-lhe um beijo fugaz na face, metendo, apressado, a nota no bolso.
Dirigiu-se ao haal, mirou-se ao espelho dando um toque na madeixa de
cabelo que lhe descaía para a testa e, antes de sair, ainda afivelou um ar pesaroso e perguntou à mulher:
- Se calhar este dinheiro faz-te falta, meu amor...
- Não te preocupes, querido. Hoje vou receber cem euros do vestido que fiz para aquela senhora fina de que te falei e que ultimamente me tem encomendado muitos trabalhos.
O Adrião saiu, mais descansado, e foi à sua vida.

Ao fim da tarde voltou, beijou a Gertrudes ainda agarrada à máquina de costura e sentou-se no sofá.
- Olha meu querido, já cá veio a tal cliente e pagou-me os cem euros do vestido, disse a Gertrudes, sorridente abanando a nota que tinha recebido.
Ao fazê-lo, reparou que, tal como a outra, tinha uns dizeres escritos por alguém.
Olhou melhor e nem queria acreditar!
A nota era a mesma, não havia dúvidas. Lá estava no canto, a lápis, com a sua caligrafia:
“Nem à minha!”
- Pode lá ser? Ripostou o Adrião, com o coração descompassado...
E em voz quase inaudível:
- Como é que se chama essa tua cliente?
- É a D.Carmen, respondeu pausadamente a Gertrudes...
Porquê, conhece-la?
- Eu? Não, nunca a vi, articulou a custo o Adrião.

                                                           EPÍLOGO
A D. Gertrudes divorciou-se e hoje é uma empresária de sucesso. Ficou com um hábito para o resto da vida. Não há nota que lhe passe pela mão que não lhe escreva uma marca identificativa...

Rui Felicio


terça-feira, 11 de junho de 2013

A ESCRITA É UMA ARMA


Solteiro, sem filhos nem familia, o Baptista tinha dedicado toda a sua vida à escrita. Era redactor da Gazeta de Penacova, onde elaborava as noticias e mantinha uma crónica semanal sobre a vila e o País.
Mas a crise foi aumentando as dificuldades financeiras da Gazeta, a publicidade definhava, as assinaturas diminuiram drásticamente e o proprietário e director teve de o chamar para lhe dizer que não tinha condições para lhe continuar a pagar o ordenado.
Perdido o emprego e único meio de subsistência, o Baptista mandou o curriculum para todos os jornais da região. As respostas recebidas, transmitiam-lhe o reconhecimento das suas invulgares qualidades de jornalista, mas argumentavam que a crise os tinha abalado a todos.
Lembrou-se de recorrer ao Gaspar, seu antigo colega de escola, e que era uma próspero comerciante de materiais de construção a quem a crise parecia não ter afligido, pedindo-lhe emprego na sua loja.
O Gaspar torceu o nariz, abanou a cabeça com fingido desalento e disse-lhe que os negócios tinham decaído muito e que não lhe poderia arranjar emprego.
Mas podia arranjar-lhe umas coroas se ele escrevesse uma carta para ser publicada na Gazeta, a desancar no João Caldeira, seu rival e concorrente. O Gaspar dar-lhe-ia os tópicos e o Baptista com a sua habilidade haveria de escrever a carta sem recorrer ao insulto nem à calúnia para que o Caldeira não tivesse pretexto para o accionar judicialmentos.
O Baptista ainda tentou recusar, dado que era amigo dos dois, mas perante o aceno de uma nota de cem euros que o Gaspar lhe mostrou para remuneração do trabalho, não resistiu. Precisava do dinheiro como de pão para a boca, para pagar a pensão onde vivia hospedado há longos anos.
 

Ao fim do dia levou o rascunho ao Gaspar que, depois de ler, exclamou:
- Formidável! Está exactamente como eu queria. Vou passá-la a limpo e enviá-la ainda hoje para o jornal!
Na manhã seguinte, bebericando na pensão a xicara de café com leite, o Baptista folheou a Gazeta de Penacova. Lá estava a toda a largura da página 3, a carta com a assinatura do Gaspar a dizer cobras e lagartos do Caldeira.
Nisto, entra na pensão um rapazote que lhe vinha entregar um bilhetinho manuscrito pelo Caldeira, pedindo-lhe que fosse imediatamente à sua loja. Precisava de falar com ele urgentemente.
O Baptista sentiu um baque no coração. Se calhar a sua forma de escrever atraiçoara-o e agora tinha de se haver com o brutamontes do Caldeira que certamente já tinha descoberto que a autoria da carta era sua.
Ainda disse ao rapaz que mais logo ia falar com o seu patrão, mas o emissário esclareceu que o Sr.Caldeira o mandou não sair dali sem levar consigo o Sr. Baptista.
Preocupado, a imaginar que desculpas havia de dar, lá foi.
O Caldeira mandou-o entrar para o cubiculo nas traseiras da loja, encimado por um pomposo letreiro a dizer “Gabinete da Administração”.
Furioso, abanando o jornal enrolado ao pé da cara do cabisbaixo Baptista, o Caldeira vociferou:
- Já leste a Gazeta de hoje?
- Não, ainda não, mentiu o Baptista...
- Pois então lê o que essa cavalgadura do Gaspar escreveu sobra a minha honrada pessoa!
O jornalista fingiu ler e no firal só lhe ocorreu dizer:
- Ele mal sabe escrever, amigo Caldeira. Não creio que tenha escrito isto.
- Pouco me importa! Assinou-a!
E, suavizando a voz, deu uma amigável palmada nas costas do Baptista e pediu-lhe:
- O gajo não pode ficar sem resposta. Tens que me escrever uma carta a dizer ao Gaspar com quantos paus se faz uma canoa! Com cuidado, usando as palavras que tu sabes escolher melhor do que ninguém, de maneira a enxovalhá-lo com diplomacia, sem asneiredo, sem insultos, senão o gajo ainda me processa.
- Oh amigo Caldeira, não posso. Sou amigo dele como sabes...
O Caldeira deu-lhe um sobrescrito e intimou-o:
- Abre, esse dinheiro é teu. Sei que estás desempregado e há-de te fazer falta.
O Baptista nem queria acreditar! Estavam ali cento e cinquenta euros!
Afastou os pruridos e ao fim do dia foi-lhe entregar a carta que o Caldeira mandou publicar na Gazeta, sob sua autoria, como se tivesse sido escrita por si próprio.
Durante mais de quinze dias o Baptista escreveu outras tantas cartas, alternadamente para o Gaspar e para o Caldeira. E, de cada vez, como o Baptista se começasse a fazer caro, os preços iam subindo. Pela última delas, já o Caldeira lhe pagou duzentos e cinquenta euros!
A Gazeta esgotava-se nas bancas logo de manhã cedo. Os leitores não perdiam pitada da controvérsia entre os dois maiores comerciantes da terra. A publicidade no jornal aumentava e o director chamou de novo o Baptista para reingressar no quadro de colaboradores, visto que as condições financeiras melhoraram a olhos vistos...

Rui Felicio

sábado, 25 de maio de 2013

NO REINO DE LILLIPUT

A História daquele País, riquissima e quase milenar, atestava superiores e grandiloquentes feitos, protagonizados por Grandes Homens, de elevada estatura.

Mas por alguma incógnita razão, súbitamente, nas últimas décadas, os destinos daquela Ilha foram sendo tomados nas mãos de homens cujas desmedidas ambição, egoismo, insensibilidade e incompetência cresciam na proporção inversa da diminuição acelerada dessa estatura.
O grande País que já fora, transformara-se num território dirigido por minúsculos lideres, subservientes com os fortes, intransigentes e exploradores dos fracos.
Tornou-se num verdadeiro Reino de lilliputianos que o forasteiro e gigante Gulliver dominava a seu bel-prazer.
No topo da hierarquia do poder, passou a pontificar o lilliputiano Dom Palonso, acolitado pela sua consorte, conselheira e influente Dona Papoila.

Queixou-se um dia Dom Palonso, em resposta a uma pergunta jornalistica, que os rendimentos que auferie eram insuficientes para as despesas do casal, pese embora serem mais de vinte vezes superiores aos da generalidade dos vassalos.
E Dona Papoila, de olhos em alvo, abanava afirmativamente a cabeça em sinal de concordância e aplauso, quando Dom Palonso, entre duas mastigadelas de bolo, borrifando os jornalistas com as migalhas que lhe saltavam da boca, explicava que essa diferença era justa e razoável, tendo em conta os inestimáveis serviços que tem prestado ao Reino.

E que, para defender os interesses de todos, incentivava os vassalos a consumirem apenas produtos nacionais, para eliminar o desequilibrio da balança de transacções correntes.
Designadamente peixe e frutas, mau grado há uns anos atrás ele próprio ter mandado destruir a frota pesqueira e as explorações agricolas, a conselho e por imposição do gigante Gulliver.

Dona Papoila sussurrava-lhe ao ouvido e Dom Palonso repetia, que os vassalos lhes seguissem o exemplo, platando laranjeiras e macieiras como o casal fez no sul da ilha povoada por ancestrais descendentes de magrebinos.

E quando o gigante Gulliver aprovou com distinção e elogiou o comportamento da governação do Reino, Dona Papoila, certamente em íntima conversa de alcova, confidenciou ao seu consorte, que tal êxito se ficava a dever à divina influência mariana, Dom Palonso apressou-se a dar a boa nova urbi et orbi.

Mais tarde, por sugestão de Dona Papoila, Dom Palonso convocou inesperadamente o Conselho Geral do Reino.
Os vassalos ainda ficaram esperançados, como náufragos agarrados a uma qualquer tábua de salvação, de que dali saisse alguma solução para a melhoria das suas actuais e desgraçadas condições de vida.

Pura ilusão!
Afinal, em vez de se discutirem os males que os afligem agora, o tema do seminário foi uma intelectualisima e académica sessão de adivinhação futura de algo que não aquenta nem arrefenta às actuais e degradantes condições de existência dos vassalos do Reino.

Supõe-se que a convocação terá sido feita pelo puro prazer orgásmico de abanar e fazer soar os sinos mediáticos e das vaidades mundanas, na oculta esperança de que a inusitada iniciativa, pudesse vir a ficar registada a letras de ouro nos anais da História, como mais um importante contributo de Sua Excelência para o Bem do Reino...
Rui Felicio

sexta-feira, 3 de maio de 2013

QUOTIDIANO NO CAFÉ DO SR. SILVA


Ao fundo, o balcão envidraçado pejado de bolos de arroz , jesuitas, duchaises, pasteis de nata e de Tentugal, brioches, queques...
Em cima dele num dos cantos, um pequeno barril de madeira que escondia a serpentina por onde corria a cerveja e que o Sr. Silva, dono do Café, de manhã e à tarde aconhegava com bocados poliédricos que ia partindo com uma martelo de uma enorme barra de gelo.
Na parede, destacado, um diploma de Tirador de Cerveja em nome do dono do Café.
Numa mesa, ao canto, o Afonso, o Silva, hóspede, que vivia num quarto alugado no primeiro andar, o Elói e o Munhoz, jogavam aos dados.
Ao lado, noutra mesa, o prof. Ilharco, de lunetas redondas encavalitadas na ponta do nariz, impacientava-se e intimava o Sr. Silva a ultimar o trabalho de meter gelo no barril para se vir sentar para uma partida de damas.
No meio do ruido dos dados a rebolarem estrepitosamente no tampo da mesa ao lado, o Afonso ia apontando num papel, os tentos de cada parceiro, sempre sob o olhar desconfiado do Munhoz que não se cansava de dizer que ele queria ganhar na secretaria.
O Sr. Silva, de cabelo preto arrepiado da frente para trás, entretanto já sentado em frente ao prof. Ilharco lá ia movimentando as pedras, carregando fortemente naquela que acabara de deslocar.

Fitava o Ilharco e sentenciava com ar melifluo:
- Vou lhe colocar aqui um prego!
- Ah! Você disse um prego, articulava o Ilharco pensativo, fazendo uma careta...
Na mesa ao lado, o Eloi, pausadamente, proclamava:
- Poker de ases!
E o Sr. Silva, sem despregar os olhos do tabuleiro das damas:
- Ele disse poker de ases...
E o Ilharco:
- Ah, você disse que ele disse poker de ases. Mas se não se pôe a pau, como lhe três e faço dama.
- E eu como-lhe a dama! Aqui não há pão para malucos...
- Ah. Você disse malucos...
- E o Munhoz na mesa do canto, ao mesmo tempo que chocalhava os dados dentro do copo de cabedal, antes de os lançar:
- Ah, ele disse que lhe comia a dama! Olha, fullen de reis por valetes. De mão! Aponta aí, Afonso!

Entra o Feliciano, de livros debaixo do braço:
- Sr. Silva, queria um café e um bolo.
- Tire-o. Sirva-se! O café são oito tostões e o bolo doze, respondia-lhe o Sr. Silva sem tirar os olhos do jogo das damas e estendendo a mão para receber o dinheiro.
- Vou-lhe fazer o pé de galo, dizia o Ilharco quando ficou com três damas contra uma.
E o Munhoz:
- Ele disse que lhe vai fazer o pé de galo!
Entre dentes, o Silva resmungava:
- Para isso tem de me tirar do rego.
- Ah, você não sai do rego...assim também eu, dizia o Ilharco, contrariado.
- Está de esquina! Não vale!, dizia o Afonso ao Eloi que reclamava uma sequência máxima.
- Pois, é como eu digo. O gajo ganha sempre na secretaria, berrava o Munhoz com um murro na mesa que fez o dado esquinado assentar numa das faces.
- De esquina? Qual esquina?, respondia-lhe o Eloi apontando para os dados.

Era assim o dia a dia no Café do Sr. Silva...

Rui Felicio
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