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sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

CULPA

Carlos Noronha, fitava a Marcia que, constrangida, de olhos baixos, o ia ouvindo e respondendo com monossílabos e frases curtas às perguntas que ele lhe fazia.
Sentado ao seu lado, Nuno Lemos, amigo dela de há muitos anos, mantinha-se silencioso, evitando interferir no diálogo entre os dois. Ia olhando de soslaio a Marcia, ex-deputada, que ficou conhecida no Parlamento pela sua grande beleza, mais do que pelos dotes oratórios. Por vezes, levantava as sobrancelhas e disfarçava a sua discordância em relação a algumas coisas que ela dizia ao Noronha, mas mantinha um prudente silêncio.
O Noronha apercebia-se da crescente ansiedade que ela denotava e isso incentivava-o a prosseguir, desfiando-lhe argumentos em catadupa e convites à resposta que ele lhe exigia.  Aquele belo homem hipnotizava-a, dominava-a. No íntimo, ela admirava-lhe os magníficos e cativantes olhos castanhos, o cabelo grisalho irrepreensivelmente tratado, o corpo musculado que se lhe adivinhava por baixo da roupa, a voz melíflua mas de uma sedutora e tépida sonoridade.Mas, ao mesmo tempo, sentia-se intimidada, incapaz de reagir, de lhe responder, de argumentar.
A cada palavra do Carlos Noronha, o coração apertava-se-lhe, os suores frios inundavam-lhe as costas, o peito, o corpo todo. As palpitações estremeciam-na, sentia as mãos húmidas, escorregadias. Quase não conseguia articular uma frase e quando o tentava fazer, as palavras saiam-lhe arrastadas, sincopadas, roucas, arranhando-lhe a garganta seca.
Assim estiveram os três, durante mais de duas horas, sentados naquela sala, até que finalmente o Carlos Noronha, Juiz de Instrução, se voltou para o Nuno Lemos e disse-lhe:
- Sr. Dr., a sua Cliente Marcia Rodrigues ficará a aguardar julgamento com termo de identidade e residência. Vou deduzir-lhe acusação de prática do crime de tráfico de influências.
 Rui Felicio

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

CENAS DO QUOTIDIANO


Baixote, atarracado, o nariz vermelho, avinhado, ocupa-lhe dois terços do rosto e os minúsculos olhos ficam escondidos por trás das sobrancelhas grisalhas, fartas e despenteadas. Perna curta, o colarinho aberto mal envolve o pescoço gordo que lhe encima o tronco desproporcionado. A barriga proeminente escorrega-lhe por cima do coçado cinto de cabedal apertado no último furo.
Tem uma antiquada loja de louças na Av. de Roma que herdou do seu pai. Deve vender uma ou duas peças por dia, cuja receita mal lhe dá para pagar a renda. Mas não faz mal, diz ele. Com paciência, chegará o dia em que receberá um balúrdio pelo trespasse a algum Banco. Que o local é bom e bem posicionado, a dois passos da estação Roma do Metropolitano...
À falta de clientela, o Filipe passa os dias no passeio, encostado à já polida ombreira de cantaria, mirando o constante vai vem dos passantes, cumprimentando uns, cortando na casaca de outros.
Nisto, uma senhora alta, na casa dos quarenta e poucos, elegante, ar aristocrático, meneando sensualmente as ancas num andar firme e resoluto, passa em frente à loja, desprendendo uma fragrância provocante. O rosto irrepreensivelmente maquilhado, os lábios carnudos, escarlates, o vestido fino desenhando os contornos das coxas, um decote generoso, completavam a imagem de uma mulher de sonho.  
Comia-te toda! – rosnou o Filipe...
A esbelta senhora deu mais uns passos, estacou, virou-se, mediu com desdém o atarracado Filipe e, antes de prosseguir o seu caminho, disse-lhe:
- Com esse físico?!! Coitado! Tinhas um enfarte só nas provas...
O Filipe virou-se para mim e disse-me: - Já viste esta puta?
Não sei se é ou não é. Sei que chegou para ti, foi o que me ocorreu dizer-lhe.
Sempre detestei piropos ordinários...
Rui Felício

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

O HÁBITO FAZ O MONGE?

Os proprietários daquele Café do Porto ao fundo da Av. da Boavista, perto do Castelo do Queijo, gabavam-se de terem uma clientela seleccionada, da burguesia portuense, supostamente oriunda das mais conceituadas famílias nortenhas. Não que lhes fosse exigido qualquer certificado genealógico. Bastava escutar-lhes o sotaque afectado, observar-lhes os trejeitos estudados, os maneirismos, o vestuário de marca.
Certo dia, três operários de uma obra de construção das imediações, vestidos de fato-macaco, entraram no tal Café, sentaram-se a uma mesa e pediram três “cimbalinos” e três bagaços, fuzilados pelos olhares críticos de duas senhoras que abanavam a cabeça, em frente, bebericando chá, com ar enjoado.
O empregado, trajado a rigor, de impecável “blazer” branco e lacinho preto “à papillon”, apontou-lhes a porta da rua, intimando-os a sair e a lerem a tabuleta afixada na porta com os dizeres “Reservado o Direito de Admissão”.
Uns tempos depois os mesmos operários voltaram ao Café, agora de fato e gravata, os cabelos irrepreensivelmente penteados sob uma densa camada de brilhantina. Um deles, fumando charuto, chamou o empregado e pediu-lhe três “Martell” em balão aquecido. Instantes após, o empregado, que não os reconhecera, regressava à mesa, com a garrafa do famoso cognac e três copos fumegantes em cima da bandeja.
Tomadas as bebidas, chamaram o gerente e informaram-no que não pagariam a conta porque os copos estavam demasiadamente aquecidos e porque os cognac’s eram uma surrapa, certamente fabricada em destilaria clandestina de Sacavém. Levantaram-se e encaminharam-se para a porta, seguidos pelos salamaleques, pelas vénias e pelos repetidos pedidos de desculpa do dono do café, que garantia a Suas Excelências que tal não se repetiria.
Obteve como reposta de um deles, que lhe apontava a tabuleta afixada na porta:
- Você é que devia ser impedido de entrar nesta espelunca!

Não sei se, naquele tempo, existia suporte legal que sustentasse essa tarja de “Reservado o Direito de Admissão”, que proliferava nos estabelecimentos comerciais na década de sessenta.
 Actualmente, sei que não é legalmente sustentada essa afixação.
Os estabelecimentos de restauração e os bares, são espaços públicos aos quais todos têm acesso e direito de permanência, salvo se manifestamente apresentarem sinais de embriaguez, se não mostrarem qualquer intenção de utilizarem os seus serviços ou se se recusarem a cumprir as suas normas privativas, desde que devidamente publicitadas.   
Felizmente os tempos mudaram...

Rui Felício

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

CORRUPÇÃO

O Presidente da Junta e mais o engenheiro-chefe  da Câmara dirigiram-se ao terreno escarpado sobranceiro à praia. O boletim meteorológico dizia que da parte da tarde iria começar a  chover  e, por isso, anteciparam a visita para antes do almoço.
Esperava-os o mestre de obras , Ramiro Lopes, que tencionava ali construir um conjunto de blocos habitacionais, aproveitando a excelente vista que a propriedade proporcionava.
Partiram, sem se precaverem contra o mau tempo. Chegados à praia, saíram do carro e começaram a subir a pé a íngreme escarpa. Ainda não tinham palmilhado metade do caminho, um negrume vindo do lado do mar, aproximou-se corrido pela ventania, escurecendo o ar. Bruscamente desabou sobre eles uma escardoçada fria e grossa, que o vento vergastava, deixando-os estonteados, atordoados, cambaleantes e patinhando no lamaçal escondido debaixo das urzes.
O Ramiro Lopes, abrigado numa barraca de madeira, no cume da escarpa, gritava-lhes com voz esganiçada que tentava sobrepor à borrasca, indicando-lhes o carreiro por onde mais céleres poderiam fugir ao temporal.
Protegidos já, dentro do palheiro, ainda resfolegando da cáustica subida, foram ao que interessava, porque, como dizia o Ramiro, tempo é dinheiro.
O engenheiro ainda tentou argumentar, dizendo que o monte era demasiadamente íngreme, dificultando os arranjos exteriores e acessibilidades da urbanização.
Além disso existia uma profunda linha de água que atravessava a escarpa e que a construção iria bloquear o escorrimento livre da chuva, provocando inundações e deslizamento de terras.
O Presidente da Junta abanava a cabeça, com fraca convicção mas em sinal de assentimento.
O Ramiro, impante, contrapunha:
- Ora, ora, meus Senhores! Se o terreno é íngreme, arrasa-se! Se a vala é funda, entulha-se! O progresso e o turismo exigem-no! A bem do nosso País que tão precisado está do dinheiro dos turistas...

Um mês depois era publicado um Edital na vitrina do átrio da Junta, meio escondido debaixo da profusa papelada diariamente ali afixada e que o submergia por completo. Dava um mês para a população se pronunciar sobre a urbanização, informando que findo esse prazo, o projecto iria ser aprovado.
Hoje, aos fins de semana, o engenheiro-chefe acorda, abre a janela de par em par, sorve o ar húmido que lhe lubrifica as narinas e escuta deliciado o rebentar contínuo das ondas lá em baixo, na vistosa vivenda isolada que o Ramiro lhe ofereceu no melhor sitio da urbanização.
Muito perto, reside a Marta, amante do Presidente da Junta, numa outra moradia oferecida pelo Ramiro.
Para evitar deslizamentos de terras que possam destruir os 58 blocos habitacionais construídos ao longo da falésia, a Câmara implementou um dispendioso e complexo sistema de fundações e muros de suporte protectores da urbanização.

Rui Felicio

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

ÂNSIA NA MADRUGADA

Na escuridão do meu quarto, acordei com os seus sussurros nos meus ouvidos, com a leveza do seu toque no meu corpo nu, primeiro no pescoço, depois no peito, na barriga.
Desceu e tocou-me com uma impressionante suavidade nas coxas, subindo devagar. De vez em quando a dor aguda e doce das suas mordidelas, fazia-me estremecer, para logo acalmar com a continuação da sua passagem pela pele, com o seu sussurrar...
Adivinhava-lhe a ganância que me ia esvaziando, enquanto me chupava, sôfrega.
Em vão tentava agarrá-la, pegar-lhe, pagar-lhe na mesma moeda. Era esquiva...
Ansioso, acendi a luz, mas não a consegui agarrar, como eu era meu desejo. Esgueirava-se-me por entre os dedos. Parecia rir-se de mim...
Logo que voltei a apagar a luz, retomou o que tinha andado a fazer comigo, insaciável.
Acabei por adormecer, exausto.
Quando acordei de manhã, o lençol estava pontilhado de manchas de sangue. E ela ali, nua, relaxada, saciada, inchada...

Com uma palmada, consegui finalmente esmagar o estupor da melga!

Rui Felicio

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

LAVAGEM AO CÉREBRO

Com quatro bocas para sustentar lá em casa, as contas da luz, da água e do gás, a prestação do frigorifico para pagar, o Mário, pedreiro nas obras, já não sabia o que fazer para esticar o ordenado que recebia ao fim de cada mês. Ganhava 750 euros brutos. Descontados os impostos e as contribuições, ficava com 652 euros. Já estava endividado até aos cabelos na mercearia do bairro e o dono ameaçava-o de lhe cortar os fiados.

Balouçando-se na luxuosa poltrona do seu escritório, o patrão deu-lhe uma ensaboadela mental quando ele lhe foi pedir aumento de ordenado:

Suponha o meu amigo que eu lhe dava mais 100 euros por mês. Você ao fim de um mês ou dois começava logo a mirar com olhos de cobiça o emprego de um seu vizinho que ganhasse mais 100 ou 200 euros, punha-se a meter cunhas, incomodava-se a revolver céu e terra, a traficar influências junto do Presidente da Junta, quem sabe do Presidente da Câmara, e, para azar seu, acabavam por lhe arranjar um lugar numa empresa municipal, como fiscal de obras.
Davam-lhe 1.200 euros por mês, mas você ficava a perder. Agora estava nas mãos deles, tinha que votar em quem eles lhe mandassem. E o dinheiro que lhe davam,  parecendo muito, era realmente menos do que aquele que eu lhe pago.
Naquele cargo, tinha que passar a conviver com engenheiros, doutores, políticos. Era obrigado a apresentar-se decentemente vestido, tinha que manter na moda o guarda-roupa da sua mulher, mandá-la ao cabeleireiro uma vez por semana e os seus filhos não podiam ir para a escola com os ténis rotos.
Entretanto ia deitando o olho a um cargo mais vantajoso. Seria chefe de um qualquer serviço da Câmara, daqueles onde se trabalha pouco e se ganha melhor. Em pouco tempo iria sentir no corpo a doença do sedentarismo por falta da actividade física que, para seu bem, tem a sorte de praticar na minha empresa. Com a inacção física, viria a doença de que sofrem tantos anémicos, entorpecidos e balofos que por lá andam. E que já só comem por desfastio. Qualquer leve corrente de ar lhe traria uma pneumonia, uma ponta de sol mais quente um aneurisma cerebral. Você faz ideia do dinheirão que ia gastar para se tratar?
Não me agradeça, amigo Mário. Mas em defesa da sua saúde e da sua vida, não lhe devo  aumentar o ordenado.

Tem razão! Nunca tinha pensado nisso...Obrigado, patrão! – agradeceu o Mário com uma vénia...

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

FANTASIA



Parecia adormecido...
Só o cadenciado ondular traía a sua calma e denunciava a imensidão.
Embalado pelo som surdo das ondas a desfazerem-se na praia, ali fiquei, sentado na areia húmida, a olhar a linha do horizonte, onde se fundiam os azuis do céu e do mar.
Sem querer, recordei as vezes que ali passeei com a minha filha, de mãos dadas. Éramos cúmplices daquele ambiente mágico, daquela lonjura ao nosso alcance.
Por vezes nadávamos, lado a lado, ao longo da linha da praia, entre as rochas que a delimitavam a norte e a sul.
Foi numa dessas vezes que tudo aconteceu.
A dado momento, enquanto nadávamos em direcção às rochas, algo me chamou a atenção.
Pareceu-me a cauda reluzente de um grande peixe dourado. Preocupado, esperei pela minha filha que nadava atrás de mim. Acenou-me com a cabeça de que também vira o mesmo que eu.
Mantivemo-nos à tona, com lentos movimentos dos braços e das pernas, observando, atentos, o local onde tínhamos visto a bela cauda do peixe.
De repente, entre o susto e a estupefacção, vimos uma coisa que jamais imagináramos poder existir naquelas águas.
Emergindo do mar, surgiu uma bela mulher, de longos e anelados cabelos dourados, que nos deixava ver um corpo escultural.
Os seus olhos amendoados, cor de mar, meigos, melancólicos, hipnotizavam-nos. Era impossível deixar de sentir aquele olhar trespassar-nos a retina e mergulhar no mais fundo do nosso ser, acelerando-nos o coração, que doía doce...
Dos seus lábios carnudos e bem desenhados, saía um som melodioso, suave, um quase choro, que nos arrepiava os sentidos...

Era com certeza uma sereia. Afinal existiam!
Por instantes, ela ficou ali a fitar-nos num movimento suave , síncrono, até que mergulhou e desapareceu nas profundezas...
Ainda esperámos algum tempo, na expectativa do seu reaparecimento. Mas, até hoje, nunca mais foi vista...
-Filha, guardas um segredo? – perguntei...
Meio confusa, meio aturdida, respondeu-me que sim...
Disse-lhe que aquela visão, seria o nosso segredo. Ocorreu-me justificar-lhe o pedido, fantasiando e dizendo-lhe que as sereias não aparecem a todos, e que, se aquela tinha resolvido aparecer-nos é porque confiara em nós, é porque nos achava pessoas de bem, pessoas especiais...
O olhar da sereia mostrou que tinha confiança em nós, em que saberíamos manter o segredo que lhe permitisse continuar a sua vida no paraíso do fundo do mar, sem ser incomodada pela multidão de curiosos e incrédulos que acabariam por devassar a sua privacidade.

Sei que a minha filha, passados tantos anos nunca quebrou a sua promessa de manter intacto o nosso segredo.
E eu, também não estou a quebrá-lo, porque não vos vou dizer em que praia é que isto aconteceu...


Rui Felicio