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quinta-feira, 25 de julho de 2013

AS PRIMEIRAS LETRAS

 
 
Ia entrar para a primeira classe em Outubro seguinte. Mas desde há uns meses que o meu pai se servia da cartilha maternal de João de Deus, para me ir ensinando as primeiras letras. Como muitos estarão recordados, este método consistia em ensinar às crianças as sonoridades dos fonemas, a importância e a intensidade tónica das vogais na formação das palavras.Começava por inserir na mente do aprendiz a correspondência dos sons com a palavra escrita.Decompunha os vocábulos em sílabas e o professor atraía a atenção da criança pronunciando a sonoridade do fonema ao mesmo tempo que apontava para as letras desenhadas na cartilha e que formavam a sílaba.Desta forma, o aluno aprendia a relacionar o som que o professor executava, com o desenho das letras que lhe correspondiam e que ele apontava.
Mesmo sem ter ido ainda à escola, já conseguia “ler” quase todas as palavras mais simples, embora em muitas delas lhes desconhecesse o verdadeiro significado.
Naquele início de Setembro íamos, a minha mãe, o meu pai e eu, acompanhados por uma grande quantidade de trouxas, malas e maletas, a caminho da Figueira da Foz passar a habitual primeira quinzena de férias numa casa alugada a uma família de pescadores na Ponte do Galante. Era uma aventura inesquecível aquela viagem de combóio que apanhávamos na Estação Velha, depois de o Adelino, nosso vizinho, nos ter até lá transportado no seu táxi, um Citroen arrastadeira que eu considerava um luxo.
Encantavam-me as portas todas a abrirem-se em cada apeadeiro, o silvo da locomotiva, o fumo da fornalha misturado com o vapor da caldeira, os bancos de ripas envernizadas, a fuligem a entrar pelas janelas abertas tisnando-nos a pele mesmo antes de a tostarmos ao sol da praia. Deliciava-me com a azáfama dos passageiros a entrar e a sair nas sucessivas estações onde a cada passo parávamos: Bencanta, Espadaneira, Formoselha e o fim da primeira grande etapa em Alfarelos. O combóio, ali, quedava-se uma boa meia hora para aguardar pelo transbordo de quem vinha de Lisboa com igual destino da cosmopolita praia da Figueira. De rodilha à cabeça, carregadas com um grande alguidar de zinco, várias mulheres cirandavam numa roda viva pela gare da estação, apregoando água fresquinha em pequenas bilhas de barro. Com um prolongado apito o Chefe da Estação dava o sinal da partida. Ouvia-se o ranger de ferros, os corpos dançavam com os solavancos das carruagens a esticarem as engrenagens que as ligavam entre si, as rodas da locomotiva patinavam nos carris luzidios e finalmente o comboio começava a ganhar lentamente velocidade.
Com a entrada de passageiros vindos do sul, a carruagem ficou à pinha. Observava em silêncio a paisagem do Vale do Mondego que ia deslizando lentamente do lado de fora, com as longas várzeas polvilhadas aqui e ali por pequenas casas que pareciam boiar na água. Passámos Verride e depois a bifurcação de Lares e o meu pai procurou explicar-me que os comboios que iam para Lisboa se desviavam ali, apontando-me a linha que ficava à nossa esquerda.
Mais à frente, na Fontela, observei o edifício da estação enquanto o comboio ali esteve parado. Lembrei-me dos ensinamentos da cartilha de João de Deus e soletrei, compenetrado, alto e bom som, as três sílabas que alguém tinha escrito a carvão em letras gordas na parede branca, por cima dos azulejos. Desconhecia-lhe o significado, mas o importante era mostrar que já sabia ler.
Antes que alguém reagisse, repeti orgulhoso a sonora palavra, mais uma ou duas vezes, martelando as silabas e apontando o dedo para a parede da estação. Depois de uns instantes de silêncio e perplexidade, os passageiros que seguiam na carruagem voltaram-se para mim. Uns, circunspectos, abanavam a cabeça, a maioria ria-se às gargalhadas.
A minha mãe chamou-me malcriado. O meu pai disse-me ao ouvido para me calar porque essa palavra era uma asneira.
Mas ninguém me explicou mais nada…
Rui Felicio

sexta-feira, 12 de julho de 2013

TARDE INESQUECÍVEL

      
Como estava combinado, ela foi ter com ele...
Às três da tarde entrou, começou a ficar ansiosa, o coração palpitava mais forte, o sangue rosava-lhe as faces...Enquanto esperava, meio deitada, meio sentada, as mãos dela suavam, as pernas tremiam-lhe, o corpo estremecia-lhe, deixava-a de lábios abertos, sorvendo o ar que lhe faltava, quase sem conseguir respirar.
Quando ele se aproximou e a envolveu, sentiu o bafo quente da sua respiração, olharam-se nos olhos, e ela ficou subitamente tensa, imóvel, com a cabeça revolta por um turbilhão de pensamentos, de medos, de vontades...
A pouco e pouco foi desistindo de resistir e entregou-se nas mãos dele.
Delicada mas firmemente ele envolve-a, invade-a, explora-a e vai-lhe pedindo que nada receie, porque será carinhoso e cuidadoso...
Mesmo assim, ela deixa escapar de vez quando um suave gemido, menos de dor, mais de ansiedade...
Quando ele termina, a paz relaxante fá-la descontrair, o coração gradualmente aquieta-se e minutos depois, recupera o fôlego e levanta-se ainda cambaleante.
Despedem-se, ele abre-lhe a porta, ela sorri-lhe e sai...
Pelo caminho até sua casa ela não consegue deixar de pensar naquela hora de suprema tensão, ainda sente na boca o gosto daqueles momentos inesquecíveis e à noite, deitada sozinha na sua cama, as insónias não lhe permitem tirar da cabeça aquela hora passada na cadeira do dentista.
Rui Felício

sexta-feira, 28 de junho de 2013

O RISO DOS PEIXES


Há uns bons trinta anos atrás, o meu primo Tonecas começou a desafiar-me para eu passar a ir com ele à pesca. Fazia-lhe companhia e justificava as suas saídas junto da Laura, sua mulher... Lá ia recusando com um irrefutável argumento. É que eu nunca na vida tinha sido pescador. Desconhecia as técnicas e quais os apetrechos necessários. Porém, perante as repetidas insistências, um dia fui a uma das lojas do Cais do Sodré, e equipei-me a preceito. Comprei uma cana telescópica, um bom e belo carreto dourado, anzóis de vários tamanhos, chumbadas, bóias, bornal, tesoura, pano de linho, balde para o peixe, caixa de plástico para acondicionar os instrumentos, mapa de marés, apoio de ferro para a cana, etc, etc.. Dei uma especial atenção ao vestuário. Um bonito colete com bolsos de caqui, umas botas com polainas, um boné... Experimentei tudo em casa. Mirei-me ao espelho e estava com aspecto de um verdadeiro profissional de pesca. No sábado a seguir , levantei-me cedo e decidi ir sozinho experimentar e treinar, para na semana seguinte não fazer má figura junto do meu primo. Passei pelo Cais do Sodré e comprei quatro pacotes de minhocas, embrulhadas em papel de jornal. Escolhi a praia da Torre. Era cómodo o acesso. Bastava parar o carro e descer umas escadas para a areia.
Carregado com os apetrechos, impecavelmente vestido à pescador, dirigi-me para a beira mar. Já ali se encontrava uma dezena de pescadores espaçados a intervalos de mais ou menos dez metros, alinhados paralelamente à linha de água que em pequenas ondas rebentava na areia. Coloquei-me à esquerda deles, pousei o bornal, aparelhei a cana, meti duas minhocas gordas nos anzóis e, disfarçadamente, observava os olhares de admiração dos meus parceiros desconhecidos. Notava-se neles um certo ar de respeito pela qualidade do meu equipamento. Levantei a cana, puxei-a bem atrás das costas e fiz como tantas vezes já tinha visto fazer a outros pescadores... Dei-lhe um forte impulso e balancei-a para a frente, largando a certa altura o fio de nylon que tinha prendido com o dedo, tal como me tinham ensinado. Ao desprender o fio, tinham me dito, o peso da chumbada fazia com que ela fosse projectada a grande distância indo cair no mar à nossa frente... Depois era esperar com paciência que o peixe picasse e, nesse caso, rodar o carreto para enrolar a linha e arrastar a presa até junto de nós.
Não esperei muito. Vi a ponta da cana dobrar-se e disse para comigo que era a sorte de principiante. Já tinha fisgado um peixe, pensei eu! Nervoso, comecei a rodar a manivela do carreto. Quanto mais rodava, maior resistência sentia. Não havia dúvidas, trazia peixe! E devia ser dos grandes, dada a enorme força que eu sentia à medida que enrolava a linha. Apercebi-me do burburinho que em crescendo começava a escutar do meu lado direito. Olhei e percebi tudo. Ao lançar a linha, devo ter soltado o dedo do fio de nylon antes de tempo e, em consequência, a chumbada não despoletou para a minha frente, mas sim para o meu lado direito indo alojar-se lá longe no areal à direita dos outros pescadores.
Quando comecei a enrolar a linha fui arrastando, sem o saber, uma a uma, as linhas das canas dos outros pescadores que estavam espetadas na areia... Ou seja, fui ensarilhando num novelo cada vez mais complexo as dez linhas à minha direita, juntamente com a minha. Começaram a insultar-me, com ar ameaçador... Vendo o caso mal parado, peguei na tesoura, cortei a linha da minha cana, peguei na trouxa e estuguei o passo em direcção ao carro.... Meti tudo no porta bagagens e olhei de longe, entre receoso e divertido, a azáfama dos pescadores a tentarem desensarilhar o novelo... Entrei no carro e desapareci antes que algo me pudesse acontecer... Passada uma semana, o meu carro tresandava a podre. Tinha me esquecido das minhocas no porta bagagens durante todos aqueles dias...

Rui Felício

terça-feira, 25 de junho de 2013

TIMIDEZ EM COIMBRA


Viam-se todas as manhãs...
Ele, segurando uma pasta de cabedal, a descer a Av. Sá da Bandeira em direcção à baixa e ela, carteira a tiracolo, a subir a caminho da Praça da República.
O Carlos Marques, elegante, aprumado, bem vestido, era um jovem alto, bonito, bem parecido. Tinha acabado o curso de Direito há um ano, estagiando agora num escritório de advogados da Rua Ferreira Borges. Fazia-o apenas para ganhar tarimba, porque aguardava resposta a um requerimento que fez para ingressar num serviço público adequado à sua formação jurídica, porque era aí que desejava fazer carreira, longe dos holofotes de teatro que considerava ser uma sala de audiências de um tribunal.
Sofria de uma profunda e agoniante timidez, que o fizera passar obscuro pelos bancos da faculdade, fechado em casa às voltas com os livros, longe das folias e da boémia coimbrã. Achava que essa forma de ser o desaconselhava de abraçar a advocacia, profissão para a qual, segundo pensava, não estaria talhado.

A Marilia, moça de olhos vivos, cheia de vida e sorriso cativante, olhava aquele belo rapaz ainda ele vinha longe, sempre à espera de um gesto seu, de um sorriso, algo que lhe mostrasse que também ele reparava nela.
Sentia-se atraída pela sua esbelta figura e estaria pronta a aprofundar o conhecimento com ele, talvez um relacionamento, um namoro até, mas os dias sucediam-se e nada da parte dele o proporcionava.
Por vezes os olhares encontravam-se, mas quando assim sucedia ele desviava propositadamente os olhos, parecendo envergonhado, incomodado, como se tivesse sido apanhado em flagrante delito.

O que a Marilia não sonhava é que o Carlos estava perdidamente apaixonado por ela e que só a timidez e a insegurança o impediam de o manifestar.
Uma noite, na solidão do seu quarto alugado na Rua Tenente Valadim, o Carlos encheu-se de coragem e decidiu escrever um bilhete que de manhã lhe entregaria quando passasse por ela.
Na manhã seguinte, afrouxou o passo sem parar, deu-lhe o papelinho, dobrado em quatro, quase sem olhar para ela e prosseguiu a marcha cabisbaixo, já intimamente arrependido de o ter feito.

Surpreendida a Marilia, desdobrou a bilhete e leu as palavras cuidadosamente desenhadas. Era uma frase simples, mas agradavelmente reveladora: “Gosto muito de si. Desculpe!.”
Olhou para trás mas ele já ia longe. Nem sequer sabia o seu nome, nem onde trabalhava, nada! Especada, ficou a vê-lo desaparecer na curva da Escola Avelar Brotero.
No dia seguinte, a Marilia esperou por ele nas escadas do Teatro Avenida, firmemente disposta a enfrentá-lo.
Quando ele se aproximou, colocou-se ostensivamente à sua frente barrando-lhe o caminho e disse-lhe com um sorriso:
- Obrigada pelo seu bilhetinho de ontem. Quero que saiba que também gosto de si.
Pareceu-lhe ver um ligeiro rubor na face quando ele se atreveu a dizer-lhe:
- Gostava que pudessemos encontrar-nos para nos conhecermos e conversarmos.
- Também gostaria muito, respondeu-lhe a Marilia, mas infelizmente, ainda esta noite, vou para as Termas de São Pedro do Sul e ficarei por lá durante um mês. O meu pai todos anos lá vai fazer tratamento a uma doença de varizes que o apoquenta.
- Combinaremos então quando regressar, se estiver de acordo, propôs-lhe o Carlos, pesaroso, mas esperançado.
- Está bem, respondeu a Marilia. Até daqui a um mês então...
E seguiram cada um para o seu destino. Na atrapalhação do momento, nem ao menos se lembraram de perguntar um ao outro como se chamavam.
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Uns dias depois o Carlos Marques recebeu um oficio do Ministério do Interior, a comunicar-lhe a sua admissão ao serviço a que concorrera.Era uma boa noticia!
Entretanto, em São Pedro do Sul, a Marilia encontrou um antigo colega de escola que não via desde há muitos anos.
Era o Tibúrcio, agora médico a trabalhar nas Termas.
Todos os dias se encontravam e rapidamente a Marilia esqueceu o tal rapaz de Coimbra. Começaram a namorar.
Não era um namoro de férias.
Estavam verdadeiramente apaixonados, a tal ponto que decidiram casar-se o mais brevemente possivel.
Afinal já se conheciam desde crianças e não tinham quaisquer dúvidas sobre a firmeza do seu amor.

O Carlos é que, já no seu novo trabalho, não conseguia deixar de pensar na sua amada.
Contava os dias para o regresso dela a Coimbra, para a ver, para lhe confessar o delirio da sua paixão, já imaginando deleitado os beijos que um dia trocariam quando começassem a namorar.
Vivia ansioso, de coração apertado pela paixão quase doentia que o acometera.
Mas o mês passou, os dias e as semanas foram correndo, e a Marilia nunca mais apareceu pela Av. Sá da Bandeira.
E ele penalizava-se por, estúpidamente, nem sequer lhe ter pedido a morada.
Agora, não fazia a minima ideia de como a encontrar, de como a procurar.


Mal adivinhava o Carlos que ela deixara o emprego e por isso nunca mais passara na avenida como antes. Andava atarefada a tratar dos preparativos para o casamento com o Tibúrcio.

A data foi aprazada, trataram da papelada e, finalmente, no dia da cerimónia, a Marilia e o Tibúrcio foram à Conservatória do Registo Civil para celebrarem o casamento.
Nervosos e irradiando felicidade, os noivos, as testemunhas, os convidados e familiares, entraram no salão de actos da Conservatória.
Esperaram uns minutos e a funcionária informou-os que o Dr. Carlos Marques, Adjunto do Conservador, estava quase a chegar e que seria ele a celebrar o matrimónio.






Rui Felicio

segunda-feira, 17 de junho de 2013

DISCURSO À ESTÁTUA





Em resposta ao desafio do Carlos Viana...
 
 

Salvé Doutor Joaquim António de Aguiar, estrénuo defensor do cartismo e conimbricense de gema galada!

Foi com estas palavras que me dirigi à estátua, estendendo o braço numa saudação romana, a capa traçada à tricana, um capacete de cartolina e uma espada de madeira, sob o olhar protector do Zé Maria, fitado de Direito que se formou aos 35 anos de idade depois ter andado por Coimbra mais de quinze, que me tinha mobilizado para o acompanhar na Latada e de quem fiquei amigo para o resto da vida.
Era a minha sina como caloiro naquele ano distante de 1963, a que me submetia. Lembro-me de estarem em volta a assistir, entre muitos outros, o Lucas Pires, o Vital Moreira, o Fernando Torres, o Carlos Encarnação, este último também caloiro como eu.
Visto à distância, este quadro parecia uma premonição do variado leque politico parlamentar que compuseram anos mais tarde.
É curioso que sendo eu verdadeiramente um tímido, nestas teatrices a voz e o gesto soltavam-se-me como se num palco estivesse plantado.


E prossegui com gestos largos e voz pausada:

Sei que petrificado como está, a sua voz não será audivel ao comum dos mortais.
O que não acontece comigo porque, embora sendo mortal não sou comum e tenho o dom de assimilar mensagens telepáticas.
Consigo portanto ouvir perfeitamente as suas sábias palavras e ensinamentos que terei a maior honra em transmitir à douta e ilustre plateia que me rodeia, ávida de enriquecer os seus já vastos conhecimentos adquiridos na mesma prestigiosa Universidade onde Vossa Excelência estudou e leccionou há mais de um século atrás.
E as três questões mais obscuras na mente dos nóveis doutores aqui presentes, que me encarregaram desta missão, às quais humildemente lhe requeiro a
bondade de os esclarecer, são as seguintes:

A primeira é a de saber porque alcunharam V. Exª com o pejorativo epíteto de Mata-Frades.

 

A segunda é a de nos revelar o que escreve e porque escreve na folha de papel que a sua mão esquerda segura.
E a terceira e última é a de nos poder esclarecer como consegue escrever algo, se não se vislumbra qualquer tinteiro onde possa molhar o aparo da pena que a sua mão direita sustenta.
Suspendi a interpelação, pedi silêncio e de ouvido a escuta e os olhos no infinito, fingi aguardar pela resposta da estátua.
Voltei-me de costas para a estátua e transmiti aos presentes as respostas que telepáticamente tinha recebido:

O insigne Doutor de Leis aqui há longos anos ao frio, ao sol e à chuva transmite aos ilustres circunstantes e em resposta ao por mim questionado, o seguinte:

Que foi injustamente alcunhado de Mata-Frades, por ter feito aprovar uma lei anti-clerical que nacionalizava os bens das ordens religiosas, porque em seu entender essa riqueza era necessária à Fazenda Nacional para suprir graves carências públicas.
Fez questão de esclarecer que ficaram de fora as ordens religiosas femininas e que por isso não lhe chamaram também o Mata-Freiras.

Quanto à segunda questão, O Doutor Aguiar informa-nos que o papel que tem na mão serve para anotar os nomes dos infractores às posturas municipais, designadamente a do Presidente Dr. Moura Relvas, que instituiu uma multa às vendedeiras dos arrabaldes que entrassem descalças na cidade.

Relativamente à terceira e última dúvida suscitada por mim, fungou e disse-me para olhar bem. A pena que tinha na mão direita era de tinta permanente, pelo que não precisava de tinteiro. E que, se precisasse, tinha a aquiescência do Director do Banco de Portugal, ali ao lado, para a molhar no tinteiro dele...



Rui Felicio

quinta-feira, 13 de junho de 2013

CIRCULAÇÃO MONETÁRIA



Era conhecido no bairro onde morava, como um simpático estoira-vergas, sempre envolvido em noitadas com muito álcool, discotecas, mulheres, patuscadas...
A meio do mês já costumava ter o dinheiro do ordenado totalmente espatifado, mas a Dona Gertrudes, sua mulher, ia segurando as pontas do orçamento familiar com os proventos que amealhava com os trabalhos de modista bem afreguesada que, de manhã à noite, ia executando em casa.
Mas depois de o Adrião Monteiro ter caido no desemprego e, especialmente, quando se esgotou o periodo em que andou a receber o magro subsidio, as coisas complicaram-se.
A Gertrudes trabalhava cada vez mais, mas, felizmente, tinha conseguido arranjar uma boa cliente, uma senhora que lhe encomendava belos vestidos.
Via-se que era uma senhora fina e que lhe pagava pontualmente o trabalho.
O Adrião, apesar das dificuldades financeiras, continuava a fazer o mesmo tipo de vida que fazia antes.
Andava até enrolado com a Carmen, uma espanhola de Málaga que há tempos conhecera numa boite de alterne dos arredores.
Estava-lhe na massa do sangue!

Passava as tardes fora de casa, prolongando muitas vezes as ausências pela noite dentro, sempre à custa dos dinheiros que pedia à Gertrudes que, condoída, achava que ele precisava de espairecer.
- Meu amor, custa-me tanto ter que te pedir, mas não me consegues arranjar cem euros?, perguntou, naquela manhã, o Adrião à mulher, enquanto lhe afagava o cabelo com carinho.
A Gertrudes virou para ele os olhos cansados, desfez-se da agulha e da linha com que costurava, sorriu-lhe e retribuiu o afago acariciando-lhe a mão.
Levantou-se e foi ao quarto onde tinha guardada uma nota de cem euros num pequeno guarda jóias de louça.
Desdobrou-a e reparou que alguém tinha escrito num canto, os dizeres:
“Nunca mais voltarás à minha mão”
Achou graça e escreveu a lápis, por baixo dos tais dizeres:
“Nem à minha!”
Voltou à sala e entregou-a ao marido que, refastelado no sofá, seguia atento o Big Brother.
- Obrigado meu amor. És uma querida, disse o Adrião, levantando-se e dando-lhe um beijo fugaz na face, metendo, apressado, a nota no bolso.
Dirigiu-se ao haal, mirou-se ao espelho dando um toque na madeixa de
cabelo que lhe descaía para a testa e, antes de sair, ainda afivelou um ar pesaroso e perguntou à mulher:
- Se calhar este dinheiro faz-te falta, meu amor...
- Não te preocupes, querido. Hoje vou receber cem euros do vestido que fiz para aquela senhora fina de que te falei e que ultimamente me tem encomendado muitos trabalhos.
O Adrião saiu, mais descansado, e foi à sua vida.

Ao fim da tarde voltou, beijou a Gertrudes ainda agarrada à máquina de costura e sentou-se no sofá.
- Olha meu querido, já cá veio a tal cliente e pagou-me os cem euros do vestido, disse a Gertrudes, sorridente abanando a nota que tinha recebido.
Ao fazê-lo, reparou que, tal como a outra, tinha uns dizeres escritos por alguém.
Olhou melhor e nem queria acreditar!
A nota era a mesma, não havia dúvidas. Lá estava no canto, a lápis, com a sua caligrafia:
“Nem à minha!”
- Pode lá ser? Ripostou o Adrião, com o coração descompassado...
E em voz quase inaudível:
- Como é que se chama essa tua cliente?
- É a D.Carmen, respondeu pausadamente a Gertrudes...
Porquê, conhece-la?
- Eu? Não, nunca a vi, articulou a custo o Adrião.

                                                           EPÍLOGO
A D. Gertrudes divorciou-se e hoje é uma empresária de sucesso. Ficou com um hábito para o resto da vida. Não há nota que lhe passe pela mão que não lhe escreva uma marca identificativa...

Rui Felicio


terça-feira, 11 de junho de 2013

A ESCRITA É UMA ARMA


Solteiro, sem filhos nem familia, o Baptista tinha dedicado toda a sua vida à escrita. Era redactor da Gazeta de Penacova, onde elaborava as noticias e mantinha uma crónica semanal sobre a vila e o País.
Mas a crise foi aumentando as dificuldades financeiras da Gazeta, a publicidade definhava, as assinaturas diminuiram drásticamente e o proprietário e director teve de o chamar para lhe dizer que não tinha condições para lhe continuar a pagar o ordenado.
Perdido o emprego e único meio de subsistência, o Baptista mandou o curriculum para todos os jornais da região. As respostas recebidas, transmitiam-lhe o reconhecimento das suas invulgares qualidades de jornalista, mas argumentavam que a crise os tinha abalado a todos.
Lembrou-se de recorrer ao Gaspar, seu antigo colega de escola, e que era uma próspero comerciante de materiais de construção a quem a crise parecia não ter afligido, pedindo-lhe emprego na sua loja.
O Gaspar torceu o nariz, abanou a cabeça com fingido desalento e disse-lhe que os negócios tinham decaído muito e que não lhe poderia arranjar emprego.
Mas podia arranjar-lhe umas coroas se ele escrevesse uma carta para ser publicada na Gazeta, a desancar no João Caldeira, seu rival e concorrente. O Gaspar dar-lhe-ia os tópicos e o Baptista com a sua habilidade haveria de escrever a carta sem recorrer ao insulto nem à calúnia para que o Caldeira não tivesse pretexto para o accionar judicialmentos.
O Baptista ainda tentou recusar, dado que era amigo dos dois, mas perante o aceno de uma nota de cem euros que o Gaspar lhe mostrou para remuneração do trabalho, não resistiu. Precisava do dinheiro como de pão para a boca, para pagar a pensão onde vivia hospedado há longos anos.
 

Ao fim do dia levou o rascunho ao Gaspar que, depois de ler, exclamou:
- Formidável! Está exactamente como eu queria. Vou passá-la a limpo e enviá-la ainda hoje para o jornal!
Na manhã seguinte, bebericando na pensão a xicara de café com leite, o Baptista folheou a Gazeta de Penacova. Lá estava a toda a largura da página 3, a carta com a assinatura do Gaspar a dizer cobras e lagartos do Caldeira.
Nisto, entra na pensão um rapazote que lhe vinha entregar um bilhetinho manuscrito pelo Caldeira, pedindo-lhe que fosse imediatamente à sua loja. Precisava de falar com ele urgentemente.
O Baptista sentiu um baque no coração. Se calhar a sua forma de escrever atraiçoara-o e agora tinha de se haver com o brutamontes do Caldeira que certamente já tinha descoberto que a autoria da carta era sua.
Ainda disse ao rapaz que mais logo ia falar com o seu patrão, mas o emissário esclareceu que o Sr.Caldeira o mandou não sair dali sem levar consigo o Sr. Baptista.
Preocupado, a imaginar que desculpas havia de dar, lá foi.
O Caldeira mandou-o entrar para o cubiculo nas traseiras da loja, encimado por um pomposo letreiro a dizer “Gabinete da Administração”.
Furioso, abanando o jornal enrolado ao pé da cara do cabisbaixo Baptista, o Caldeira vociferou:
- Já leste a Gazeta de hoje?
- Não, ainda não, mentiu o Baptista...
- Pois então lê o que essa cavalgadura do Gaspar escreveu sobra a minha honrada pessoa!
O jornalista fingiu ler e no firal só lhe ocorreu dizer:
- Ele mal sabe escrever, amigo Caldeira. Não creio que tenha escrito isto.
- Pouco me importa! Assinou-a!
E, suavizando a voz, deu uma amigável palmada nas costas do Baptista e pediu-lhe:
- O gajo não pode ficar sem resposta. Tens que me escrever uma carta a dizer ao Gaspar com quantos paus se faz uma canoa! Com cuidado, usando as palavras que tu sabes escolher melhor do que ninguém, de maneira a enxovalhá-lo com diplomacia, sem asneiredo, sem insultos, senão o gajo ainda me processa.
- Oh amigo Caldeira, não posso. Sou amigo dele como sabes...
O Caldeira deu-lhe um sobrescrito e intimou-o:
- Abre, esse dinheiro é teu. Sei que estás desempregado e há-de te fazer falta.
O Baptista nem queria acreditar! Estavam ali cento e cinquenta euros!
Afastou os pruridos e ao fim do dia foi-lhe entregar a carta que o Caldeira mandou publicar na Gazeta, sob sua autoria, como se tivesse sido escrita por si próprio.
Durante mais de quinze dias o Baptista escreveu outras tantas cartas, alternadamente para o Gaspar e para o Caldeira. E, de cada vez, como o Baptista se começasse a fazer caro, os preços iam subindo. Pela última delas, já o Caldeira lhe pagou duzentos e cinquenta euros!
A Gazeta esgotava-se nas bancas logo de manhã cedo. Os leitores não perdiam pitada da controvérsia entre os dois maiores comerciantes da terra. A publicidade no jornal aumentava e o director chamou de novo o Baptista para reingressar no quadro de colaboradores, visto que as condições financeiras melhoraram a olhos vistos...

Rui Felicio